All posts by Kico (Henrique Lobo Weissmann)

webpack

Acabo de publicar mais um guia: Usando Webpack

Acabei de publicar mais um guia pela Itexto: “Usando Webpack”. Este trabalho surgiu como um dos resultados das nossas pesquisas internas envolvendo o ferramental front-end (o próximo a ser publicado será sobre o npm).

Ao começar o estudo a respeito do vue-loader, algo que sempre me pareceu bastante complexo foi o Webpack, que é um module bundler baseado em Node.js (se você conhece Grails, pense em um “asset pipeline para HTML 5”). Não há como negar, o Webpack tem lá sua curva de aprendizado: por isto escrevi o guia com o objetivo de facilitar a adoção da ferramenta pela nossa equipe e, agora, vocês também.

Como todo guia da Itexto, este será um trabalho inacabado e totalmente aberto. Iremos evoluir o material conforme nossa experiência com ele progride e, dado que toda opinião é bem vinda, seu código fonte está totalmente disponibilizado no Github caso alguém mais queira dar sua contribuição.

É um guia escrito por um sujeito que pensa mais no back-end que n o front-end, sendo assim, espero que seja útil para você caso se encaixe neste perfil. :)

Você pode acessar o guia neste link: http://www.itexto.com.br/guias/?guia=usando-webpack

Espero que lhes seja útil!

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Spring Brasil no ar, Grails Brasil e o poder das comunidades

Ontem colocamos no ar o Spring Brasil, que é um portal/fórum voltado para a comunidade de desenvolvedores que trabalham com o framework e todas as tecnologias relacionadas. O objetivo é em parte o mesmo que me motivou 9 anos atrás a criar o Grails Brasil: ajudar a divulgar estas tecnologias e aprender mais a respeito no processo.

Mas há uma diferença: Spring, ao contrário do Grails naquela época (e mesmo hoje) não precisa de gente que o divulgue pois já é há um bom tempo (mais de uma década provavelmente) o framework mais popular entre desenvolvedores Java. Então: pra quê este esforço?

Por que comunidades importam

Por um tempo pensei que o Stack Overflow fosse matar todos os fórums voltados a desenvolvimento da internet. Em parte matou, entretanto, apesar do sucesso estrondoso eu, pelo menos, nunca criei elos com outros participantes do site tais como os que criei no GUJ ou Grails Brasil.

O fórum ainda é vital, principalmente os quebra-paus

O foco no Stack Overflow e sites de Q&A é outro: resolver problemas de forma direta e não discutir. Por isto tantas perguntas que acho extremamente relevantes são travadas por moderadores (como esta). Isto sempre me incomodou (e muito). É a limitação do formato “Q&A”. Você está lá para ter uma solução do problema, não necessariamente para refletir a respeito e, mais importante, se aprofundar nele, e por isto, confesso, sempre desprezei o formato e não o segui no Grails Brasil, tal como tentaram fazer no GUJ.

Acredito no poder da discórdia. Pode não parecer, mas minha discussão favorita no Grails Brasil, sabe qual é? Esta: “Grails é horrível“. Seria fácil como mantenedor do site apagar o post, bloquear os membros (bloqueei um sujeito que fez flood, mas só por isto) e censurar o conteúdo dizendo se tratar de uma briga tola.

(não gosto daqueles que concordam com tudo e confesso curtir ver o circo pegando fogo)

Entretanto, se você ler a discussão inteira irá notar que aprendemos muito nela. É por isto que no Grails Brasil (e agora também no Spring Brasil) não temos moderadores no fórum. Confesso que não gosto desta figura: cria duas classes de pessoas quando deveria haver só uma: o participante que quer aprender ou ajudar os outros.

(há moderadores no Grails Brasil e Spring Brasil: eles cuidam apenas da aprovação de notícias para evitar spam, mas nunca houve uma notícia que não tivesse sido aceita nestes 9 anos)

E o mais interessante destas longas conversas é que elas costumam criar elos. Muitos dos clientes da itexto hoje surgiram destas discussões no GUJ e Grails Brasil. Sendo assim, não há como negar o aspecto socializador da coisa.

E os trolls?

E os trolls, como lidar com eles? Bom, nestes 38 anos algo que aprendi foi que você tem das pessoas o que espera delas. Se criarmos uma comunidade esperando o pior dos outros, teremos isto como retorno. Se é uma comunidade, pessoas normais se auto gerenciam, não precisam de tutores.

E se o troll aparecer? Ah, aí a gente lida com ele, mas existem mecanismos no próprio fórum que o evitam. Quer um exemplo? A impossibilidade de editar perguntas ou respostas que muitos reclamaram comigo nestes anos (talvez mude um pouco, mas muito pouco, em um futuro próximo). Por que você não pode editar ou excluir este conteúdo? Simples: para garantir a honestidade intelectual do diálogo.

Nestes 9 anos de Grails Brasil, quantos trolls tivemos? Um. Talvez por a comunidade ser muito menor que as demais, entretanto, creio que o mesmo se repetirá no Spring Brasil ou qualquer outra comunidade que venhamos a lançar no futuro.

Por que boa parte do ecossistema Spring é desconhecida

Esta é outra boa razão: o Spring Framework (e agora o Spring Boot) são muito bem conhecidos na nossa comunidade. Entretanto, conversando com o pessoal observo que, tirando estes projetos, o único conhecido de fato é o Spring Security.

E há uma enorme quantidade de projetos que podemos discutir e nos aprofundar nesta comunidade: basta ver a página dos projetos no spring.io. Então há muito o que aprender, e isto me empolga bastante!

Coisas que estão por vir

 

No sábado colocamos no ar o primeiro release do Spring Brasil que contém as mesmas funcionalidades presentes no Grails Brasil (é o mesmo código fonte, porém com algumas melhorias). Em um futuro próximo queremos melhorar incluindo algumas novidades:

  • Publicação de vagas de emprego
  • Melhoria no portólio pessoal dos membros para que possam expor seus trabalhos e currículo
  • Divulgação de eventos
  • Criação de uma nova newsletter, tal como a Semana Groovy
  • E, claro, o que for sugerido pelos membros da comunidade

Eventualmente todas estas mudanças irão voltar para o Groovy e Grails Brasil pois, como disse, é o mesmo código-fonte.

E nove anos depois…

Nove anos depois vamos fomentar mais comunidades, primeiro com o Spring Brasil, depois com outras que sabemos ser importantes na comunidade de desenvolvimento nacional.

Conto com a participação de vocês nesta nova jornada: espero fazer um número de amigos e parceiros tão grande quanto foi realizado com o Grails Brasil.

Link para a comunidade: http://www.springbrasil.com.br

Para se registrar, acesse este link: http://springbrasil.com.br/membro/registro . É possível se conectar usando Facebook (mais redes sociais estão a caminho), sendo assim o processo de entrada fica muito mais fácil (algo que devia ter feito no Grails Brasil anos atrás).

Conto com vocês!

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Minhas boas leituras de 2016

Apesar de ter lido muitos livros ruins em 2016, o contrário também se manifestou: peguei muita coisa boa para ler. Houve um lado positivo no atraso deste post anual: pude comprovar aqueles livros que realmente me fizeram bem. Sem demora, vamos à lista.

Configuration Management Best Practices – Bob Aiello e Leslie Sachs

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É grande a chance deste ter sido o livro mais importante do ano para mim. Inclusive o mencionei na apresentação no DevCamp 2016. Em nosso trabalho com legado sem sombra de dúvidas o mais importante (junto com a análise inicial do projeto) é a aplicação de boas práticas de gestão de configuração e mudança.

O problema com esta disciplina (tenho vontade de escrever um livro sobre) é que se fala muita bobagem a seu respeito. Ainda pior: em praticamente todas as equipes pelas quais passei (com exceção, naturalmente, da itexto) esta é vista mais como um fardo que uma ferramenta capaz de alavancar projetos. Em grande parte por que as pessoas simplesmente não sabem escrever bem a respeito.

Este livro é o exato oposto: bem escrito e focado na prática apresentando diversas histórias (que os autores dizem ser reais) que batem com situações similares às que presenciei pessoalmente. Há um único porém neste livro: tive a impressão de ser um jabá monstruoso do site dos autores: http://cmbestpractices.com/ .

Vale cada centavo. Comprei na Amazon.

Software Estimation – Demystifying the Black Art – Steve McConnell

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Se é do Steve McConnell há 90% de chance de que eu ame, e com este livro não foi diferente.

Já havia tido um contato com este livro alguns anos atrás, mas nunca o havia estudado a fundo, tal como fiz este ano. Sabe aquele papo de “no estimates”? Pois é, é bobagem, pois todo cliente quer ter uma ideia sobre quanto quer pagar.

E se você acha que sabe fazer uma estimativa, este livro te prova o contrário logo no primeiro capítulo. Tal como o próprio subtitulo diz, ele realmente desmistifica o processo de estimativa, te faz pensar o que realmente significa estimar algo. É um livro que te faz pensar e que me ajudou bastante neste ano de 2016.

Melhorou algo no qual já somos bons na itexto, que é o processo de estimativa em nossos projetos arquiteturais. Ajuda a te tirar da zona instintiva (mas não totalmente, pois isto é impossível).

Código Limpo – Robert C. Martin

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Finalmente li este livro, mas confesso que fiquei bastante decepcionado. Talvez tenha sido a tradução para o português (achei bem fraca), mas creio que a razão foi outra, e a culpa é do Steve McConnell com seu Code Complete, que li em meus anos de formação.

Sendo assim este livro não me trouxe grandes novidades, foi mais um repeteco com pouca profundidade do Code Complete. Isto não quer dizer que seja um livro ruim, muito pelo contrário. É também um bom livro de formação para quem está começando.

Na minha opinião os capítulos sobre como dar nome a variáveis e o sobre a definição de parâmetros em função já justificam sua leitura. Leia estes capítulos (faço muita pressão na itexto para que os mesmos sejam lidos por quem entra).

Não consigo pensar neste livro sem lembrar do Code Complete (ei, li as duas edições do Code Complete em inglês e português, se sou fanboy de algo, é deste livro, então desconfie do que vou dizer). Minha recomendação é a seguinte: Código Limpo te tornará um bom júnior, mas a boa leitura do Code Complete te prepara para ser um excelente pleno.

TDD com PHP – André Cardoso e Maurício Aniche

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Em 2016 voltei a estudar PHP, então achei que seria interessante começar a partir do TDD. Comprei dois livros sobre o assunto e um deles foi este que adorei: vale ouro. Apesar de ser bem raso no que diz respeito ao PHP (o que é justo, visto que a linguagem é usada apenas para ilustrar o TDD), o que é tratado sobre TDD achei simplesmente excelente. Uma palavra para descrever este livro? Excelente. Merece uma review só para ele.

É excelente não por que concordo com os autores, mas por que sua leitura me fez questionar algumas das ideias que tinha sobre o modo como pratico TDD. É um texto que propicia o diálogo entre leitor e autor(es) de uma forma rica, pois é muito bem escrito.

Pelo que pude entender no site da Casa do Código há versões deste livro para .net e Java que contém essencialmente o mesmo texto, trocando apenas a linguagem usada para ilustrar os conceitos. Dos livros nacionais que li em 2016, este sem sombra de dúvidas foi o melhor: muito bom ver gente daqui fazendo coisa boa!

É o livro técnico tal como deve ser escrito: tem profundidade, te faz pensar, é cheio de referências, apresenta bibliografia decente, não é um tutorial disfarçado de livro, é técnico, tem o peso correto, apresenta a visão dos autores e seus contra-pontos (o que o torna intelectualmente honesto). Resumindo: leia.

Sobre o outro livro de PHP que li… lixo absoluto, profundidade de uma poça em evaporação, mal escrito, sem bibliografia alguma, sem qualquer referência, apresenta conteúdo equivocado…. Vai ter um review aqui no blog assim que encontrar adjetivos menos agressivos a seu respeito.

Aplicações Mobile Híbrigdas com Cordova e Phonegap – Sérgio Lopes

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Este foi outro livro que li em 2016 e gostei bastante. Sabe quando disse que detesto tutoriais disfarçados de livros? Este aqui foge à regra. Segue a forma de um tutorial, mas um muito bem escrito e que fornece um bom nível de profundidade sobre as tecnologias que aborda para quem está começando.

Cordova foi sem sombra de dúvidas uma das tecnologias mais importantes para nós em 2016, e este livro com certeza foi a melhor introdução ao assunto que poderíamos ter encontrado.

Não foi surpresa alguma para mim: o outro livro do Sérgio Lopes – A Web Mobile – indico para todos os nossos clientes e uso como referência em qualquer contratação de serviços de design que realizamos na itexto. Aliás, tenho um review deste outro livro, que pode ser lida aqui.

Professional WordPress – Design and Development – Third Edition – Brad Williams, David Damstra e Hal Stern

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Acho muito difícil fugir do WordPress quando precisamos de um bom CMS. Em 2016 investimos bastante em seu aprendizado e sem sombra de dúvidas este foi o melhor material que encontramos a este respeito.

Este livro valeu cada centavo que pagamos nele (foi barato, US$ 35,00 aproximadamente na Amazon). É um excelente material para quem quer se aprofundar no WordPress: se você quer conhecer as entranhas da criatura, este é O livro.

Realiza bem o que se propõe fazer: você irá entender como funcionam e como escrever plugins e templates para o WordPress. Ainda mais importante: te explica como montar o ambiente de desenvolvimento, algo que na minha opinião sempre foi uma atividade feita de uma forma bem porca.

Mais do que isto, é realizada uma verdadeira dissecação do WordPress: você vai entender como seu código é organizado, como são estruturadas suas tabelas e também é feita uma descrição (um pouco rasa, é verdade) sobre o ambiente no qual este é executado (infelizmente só fala do Apache HTTP) que para os que estão iniciando é simplesmente excelente.

Bem escrito, com excelente aprofundamento, bons exemplos, muitas referências interessantes, diversas dicas práticas. Depois da sua leitura posso dizer com certeza que subimos de nível quando o assunto é WordPress: somos muito mais produtivos agora e temos uma compreensão muito maior sobre seu funcionamento. É um daqueles livros que requer dedicação, mas que terá valido cada segundo do seu esforço.

(infelizmente o restante do material que li sobre PHP se encaixa na categoria lixo)

Gerenciando Projetos Grandes e Pequenos – Coleção Harvard Business Essentials – Richard Luecke

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Pouco a pouco a ideia de que sou um empresário (um programador-empresário talvez seja o mais preciso) agora está influenciando minhas leituras. Achei que seria interessante rever diversos dos conceitos de gestão de projetos tradicional (o PMBOK).

Este livro é uma boa leitura nesta direção: entenda, você não terá aprofundamento algum nesta leitura, mas como uma simples revisão é uma leitura que vale à pena. No meu caso foi bastante importante para que eu pudesse confirmar aquilo da gestão que realmente não iremos usar o que, em si, já valeria um post.

Por ter me ajudado a validar o modo como gerimos nossos projetos estou citando este livro.

O Risco de TI – Richard Hunter e George Westerman

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Este livro me tornou um melhor arquiteto de sistemas/corporativo/software sem sombra de dúvidas. É focado em TI, mas voltado para o público que consome nossos serviços. Essencialmente ele diz aquilo que não é dito para nossos clientes: que nós, da TI, além de provermos soluções, também somos uma fonte de riscos.

Na minha experiência infelizmente a gestão de riscos é vista como tabu na esmagadora maioria dos projetos. É como se as pessoas fossem supersticiosas a este respeito: como se simplesmente tocar no assunto magicamente materializasse as ameaças.

Os autores apresentam um framework muito interessante para ser levado em consideração na gestão de riscos envolvendo TI. Nos é provido o linguajar necessário para que provedores de serviço e consumidores possam se entender bem, tornar claras as ameaças e projetar estratégias para lidar com os riscos detectados.

O impacto deste livro em nós foi muito forte: digo com certeza que além de me ter tornado um arquiteto melhor, também me tornou um gestor mais atento, pois usamos a abordagem descrita no material para lidar com as ameaças que envolvem o nosso negócio, o que nos tem feito dormir com muito mais tranquilidade.

Recomendo sua leitura: especialmente para aqueles que pensam em gestão de riscos em TI como apenas o aspecto “segurança da informação”.

The Best Software Writing I – organizado por Joel Spolsky

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E este foi o livro que mais gostei de ler em 2016. Infelizmente o li com 11 anos de atraso! Joel Spolsky (você já conhece o blog dele, certo??? Se não, tá aqui o link!) organizou neste volume uma série de artigos publicados até 2005 (ano de publicação) que considera serem os textos mais bem escritos sobre desenvolvimento de software.

Sem sombra de dúvidas são alguns dos melhores artigos que já li e tratam de questões que eram extremamente relevantes em 2005 e continuam hoje, 12 anos depois. Outsourcing vale à pena? Devemos forçar padronizações em nossa equipe de desenvolvimento? Como tratar bem quem trabalha conosco? O que torna você um excelente hacker? PowerPoint nos deixa estúpidos?

Artigos escritos por pessoas que você já tenha ouvido falar: Aaron Swartz, Raymond Chen, Cory Doctorow, Bruce Eckel, Paul Graham, Why the Lucky Stiff (lembra dele?), Eric Johnson… Muitos deles autores que eu lia naquela época e que pude reencontrar neste livro. Há alguns clássicos aqui, como, por exemplo, o Starbucks does not use two-fase commit.

É um livro escrito na época em que redes sociais começavam a se materializar, então você lerá alguns artigos muito interessantes, que mostram a percepção inicial do fenômeno naquela época. Claro, talvez você se interesse mais pelo que está acontecendo neste momento, mas se curtir história como eu, este livro é um prato cheio.

O tempo inteiro a sensação que tinha ao ler estas páginas era o de “puta merda, se eu tivesse lido isto antes não teria feito aquela merda!”. Está a venda na Amazon também, então compre este negócio o mais rápido possível para não demorar os 11 anos que levei para ler isto!

Sim, este livro me tornou um autor melhor, e creio que este meu post (Leitura: modo de usar) foi fortemente influenciado pelas leituras que fiz aqui.

E que venham as leituras de 2017

Durante este ano pretendo publicar aqui algumas resenhas sobre o que estou lendo. Especialmente sobre as coisas que estou detestando ler. Espero que algum destes livros que citei te inspire de alguma forma.

E no final do ano posto aqui quais foram as leituras mais importantes do ano pra vocês novamente.

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Leitura: modo de usar

Se você acompanha este blog já deve ter notado que um dos meus assuntos favoritos é a leitura (basta ver os dois últimos posts aqui e aqui, além da minha lista anual de boas leituras do ano). Curioso que a leitura só se tornou algo realmente importante para mim bem tarde: eu tinha lá pelos meus 17, 18 anos.

Ainda mais interessante é saber que fui um analfabeto funcional até os 21 anos, quando ingressei no curso de Filosofia.

Até 2014 eu acreditava que a educação era um problema sério em nosso país, a partir de 2015 passei a ter a certeza de ser o que irá (e já está) destrui(r|ndo) esta nação. Então este post é sobre a única ferramenta que conheço e sei ser capaz de alavancar a vida de alguém: a leitura.

Como ela alavanca sua vida

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Eu tinha 18 anos, três bombas em meu currículo escolar e uma vida confortavelmente vadia. Escola pela manhã, tarde e noites livres para fazer o que quisesse: ao final do bimestre corria atrás para tirar média nas provas e ao final do ano me safava de outra bomba ao passar nas constantes recuperações. Engraçado pensar como a mediocridade parecia massa naqueles dias…

Alguns conhecidos já estavam na faculdade e uns raros fazendo intercâmbio, eu ainda no segundo grau. Como eram pessoas distantes, não passavam de mera curiosidade: pareciam seres super dotados, sortudos ou beneficiados (inveja detected). Depois de um tempo muitos amigos próximos começaram a ferrar suas vidas de maneiras assustadoras, e ainda não sei como não ocorreu comigo (mortes, acidentes, doenças facilmente evitáveis, sequelas de drogas, paternidade precoce…).

Veio o primeiro vestibular, quase todos os sobreviventes passaram e eu não. Foi quando percebi que aqueles que estudavam conseguiam se distanciar de um destino desagradável. Notei algo que diferenciava os sobreviventes dos demaiso estudo.

A mediocridade agora se apresentava a mim como uma doença: aqueles que chamei de sobreviventes na realidade estavam vivendo. Eu sobrevivia: a cada ano ficava mais velho e sem saber o que fazer. Temia me juntar aos que haviam falhado de maneira tão estúpida. Na realidade, quase todos me viam como sendo pertencente ao grupo dos que ficaram.

Entrei no pré-vestibular e fiquei por quatro meses, na sequência fui para o mercado de trabalho (em uma Livraria), estudei feito um louco e passei em sexto lugar no vestibular de Filosofia. Neste processo de um ano me afastei do cemitério e desde então as coisas só melhoraram.

A leitura me apresentava alternativas que até então sequer imaginava: coisas que não te contam na mesa do bar, experiências que não são facilmente acessíveis, possibilidades que não se espera. Resumindo: os textos me expunham a objetos que só teria acesso em uma conversa se tivesse muita sorte.

Mais do que isto, ao aprender algo novo surgiam conexões entre os assuntos. Eu via, por exemplo, a maçã da Apple, que estava ligada à de Newton, que também referenciava a tentação (por isto mordida). Os videogames se tornavam mais ricos também: o cogumelo do Mario não era apenas um cogumelo mágico, era uma referência à “Alice no País das Maravilhas”.

E do ponto de vista financeiro também era ótimo: na livraria o cliente mencionava um assunto, eu sabia que ele estava relacionado a outros e quais livros os continham e nisto vendia mais, o que me incentivava muito a ler mais livros, que conhecia em meu tempo ocioso na loja. Iniciou-se um ciclo: quanto mais lia mais vendia.

Ao vender mais livros, via que o processo de organização da loja era uma merda pois o software era um lixo. Nascia o primeiro produto da itexto, que foi a Plataforma Livreiro. E então eu tinha contato com mais livros de informática para aprender a programar melhor, e com isto fui me tornando o que realmente queria ser e serei sempre: um programador.

Neste momento começo a detectar as ideias e relaciona-las entre si.

Como aprendi a ler aos 21 anos

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Meus anos na escola foram descartáveis: era péssimo aluno. Creio que o ensino também não era tão bom assim pois nos quatro meses de vestibular “aprendi” tudo o que me fora ensinado nos 14 anos que passei na escola. Claro que agora eu pagaria um preço altíssimo por minha vadiagem.

De todos os cursos escolhi um dos quais a disciplina de estudo era das mais ferrenhas. Eu mal sabia português (até hoje não se sabe como aprendi inglês na infância), e de repente era necessário conhecer o mínimo do francês, grego, latim, alemão. Ainda pior: minha leitura era extremamente ineficiente. Era um procedimento estritamente linear, diversas palavras eu não conhecia e ao final dos textos creio que captava no máximo uns 20% do conteúdo.

Era claro que a coisa não estava funcionando e não iria funcionar: meu destino zumbi se aproximava novamente. O interessante é que os professores detectaram esta falha não apenas em mim, mas na maior parte da turma, razão pela qual tivemos uma matéria especial cujo objetivo era justamente aprender a estudar. Foi quando aprendi a ler de verdade.

Ok, em um primeiro momento eu conectava as ideias que conseguia captar. A partir de agora além de captar mais ideias, eu também as entendia a fundo e as questionava. Como?

Como ler um texto

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Ler não é um ato passivo. Seus olhos não devem simplesmente seguir as linhas repetindo em sua cabeça as palavras impressas. O leitor deve assumir uma postura ativa diante do texto. Pode soar curioso para alguns, mas o texto não é um monólogo e sim um diálogo com o leitor.

Terminou o parágrafo ou frase, se questione: aquilo faz sentido? Você realmente entende aquilo que foi dito? Consegue pensar em exemplos que ilustrem aquela situação? Visualizou a cena? O parágrafo não deve terminar com um ponto ou exclamação, mas sempre com uma interrogação na mente do leitor.

O texto é uma pergunta: o bom autor te incita a pensar (de preferência naquele momento). Ainda mais importante: nem sempre o autor está certo. Uma leitura rica envolve a discordância do leitor em relação ao autor. Discordou? Então tenha certeza de que teve uma experiência foda.  A leitura deve ser uma discussão. E não, um livro do qual se discorda não é necessariamente um livro ruim.

(quer um bom exemplo disto? Leia Platão: em diversos pontos de seus diálogos ideias erradas são inseridas propositalmente para incitar o leitor a discordar. E o mais importante: raríssimas vezes chega-se a uma conclusão – é a aporia)

A leitura proveitosa é um processo lento. Muito lento (demorei 10 anos para terminar as 80 e poucas páginas do Tractactus do Wittgenstein, que talvez tenha sido a melhor leitura da minha vida). Requer que tenhamos o que Hegel chamava de paciência do conceito.

O leitor não pode sucumbir à ansiedade. O autor ao expor a informação o faz de uma forma construtiva, uma ideia por vez, e estas ideias são trançadas como um bordado. Aliás, sabe qual é uma das origens etimológicas da palavra texto? Tecido.

Quando todas as ideias se conectam (você chegou ao final do texto), a tapeçaria final lhe é exposta. Você questionou cada uma de suas linhas e agora tem uma visão global da intenção do autor ou, melhor ainda, da sua interpretação sobre o que foi escrito.

O vídeo ou o áudio não lhe proporcionam de maneira tão fácil este diálogo que descrevi acima. Aliás, temo que o excesso audiovisual dos dias atuais ao nos isolar desta conversa terminará por nos emburrecer. Você pode até mesmo pensar que está aprendendo com um audiobook ou vídeo, mas nossa postura é mais passiva que ativa nesses meios.

A leitura é um jogo não linear. Ler linearmente é desperdício do seu tempo. Pense naquele texto difícil, você passa pelos parágrafos em sequência? Eu não: na realidade luto com eles. Volto ao início, releio diversas vezes, pego um marcador, o risco em n partes, às vezes até mesmo xingo o autor verbalmente. Há termos desconhecidos? Busco no dicionário/internet, penso no significado e se foi bem aplicado. É o diálogo novamente.

Você também pode voltar não apenas ao início do parágrafo, mas páginas atrás. Nestes casos marco meus livros com o que tiver em mãos. No caso de PDF, melhor ainda, pois as possibilidades são ainda mais interessantes e não preciso comprar mais de uma cópia física do livro (sim, em alguns casos tenho mais de uma cópia do livro, justamente devido às anotações e marcações que faço nestes).

Um texto denso quando lido linearmente normalmente é um texto denso mal lido e portanto pouco compreendido. Pior: é seu tempo jogado fora e talvez uma baixa em sua auto estima.

Sabe aquelas notas de rodapé? Valem ouro, leia todas também. Aliás, uma dica: há livros nos quais as notas são mais interessantes que o conteúdo principal. Não foram inseridas por acaso, estão ali por que abrem trilhas de pesquisa para o leitor: estão ali por que se fossem inseridas no texto principal afastariam demais o leitor do objetivo original da obra.

Vejo as notas de rodapé como “conexões gratuitas entre ideias”. O autor está ali te mostrando que há conexão entre o texto principal e outros assuntos que se encontram fora do escopo original do trabalho.

Ainda mais interessante é quando o leitor se torna autor. Não basta apenas dialogar, você também tem de fazer suas notas a respeito do que está lendo. Por que isto é importante? Por que você só conhece algo quando de fato consegue descrevê-lo em palavras, principalmente quando forem compreensíveis por outras pessoas que não sejam você.

Quando digo notas não quero dizer resumos, digo novos textos mesmo. Nos ensinam errado a estudar: não é repetir o que o autor disse. É externalizar as suas próprias ideias, surgidas a partir da leitura como conteúdo novo. Quando chegamos a este ponto o ciclo da leitura se fechou: leitor se tornou autor, que agora irá interagir com outros leitores e por aí vai.

Este blog, por exemplo,  é a materialização deste ciclo. Basta ver os posts mais antigos, como este.

Dicas de leitura

Eu não podia terminar um post sobre a leitura sem dar dicas de leitura sobre a… leitura, certo? Então seguem dois livros que adoro sobre o assunto.

Uma História da Leitura – Alberto Manguel

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O título já diz tudo: é a história do ato de ler. Este livro tem a introdução mais bonita que já li. Uma leitura maravilhosa. Além de tudo é ilustrado, e com excelentes imagens que realmente enriquecem muito o conteúdo.

Uma história inusitada para a nossa ferramenta mais poderosa. De novo: leitura maravilhosa!

Como se faz uma tese – Umberto Eco

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Ainda vou escrever um post sobre como estudar. Enquanto isto, alguém que fez um trabalho muito melhor foi o Umberto Eco neste livro. Nele você aprenderá como é o ofício do pesquisador/autor. Sabe aquele negócio que mencionei de ter mais de uma cópia física do livro como objeto de trabalho? Aprendi aí.

Como se faz um fichamento, como se marca um livro, como se escreve resumos, enfim, como escrever um livro técnico de uma forma minimamente decente.

Interessante que é o ofício do pesquisador antes da Internet.

Conclusão?

Este post não tem conclusões. Quis apenas expor aqui como trato o ato da leitura por saber que é uma forma eficiente de se aprender e também devido ao meu medo de que estejamos iniciando um processo de emburrecimento coletivo com o excesso audiovisual.

Se a leitura for vista como um ato interativo e não como algo passivo tenho certeza de que terei dado minha contribuição.

PS: livros interativos não funcionaram. Prova disto foi a morte da indústria do CD-ROM, que não foi substituída pela Internet.

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Eu e os livros técnicos: sou exigente?

Após ter escrito meu último post algumas(muitas) pessoas me disseram que sou muito exigente e que se há livros ruins sendo vendidos, isto ocorre por que há quem os compre. São pontos realmente interessantes, e que levantam uma série de questionamentos – ao menos para mim – no mínimo fascinantes.

Primeiro algumas coisas que eu devia ter tornado mais claras no post anterior

De novo sobre a importância da bibliografia

Ouvi algumas vezes a seguinte frase: “realmente, bibliografias são ótimas para que possamos nos aprofundar no assunto”. Creio que não fui claro o suficiente, então direi agora: a bibliografia mostra que o autor realmente estudou.

Recentemente peguei um livro técnico que tinha exatamente quatro referências bibliográficas. Este autor realmente estudou? Solto então um parâmetro de avaliação que nunca me falhou:

A qualidade de um livro técnico é diretamente proporcional ao tamanho de sua bibliografia.

Resumindo: bibliografia não é feature, mas sim requisito fundamental.

O peso da responsabilidade

As pessoas levam muito a sério o que leem nos livros. Não raro consideram como referência imediata o(s) autor(es) daquilo que compram. A razão por trás disto é simples, como bem dizia um antigo professor meu (José Henrique Santos, lá na FAFICH) que parafraseio agora:

A mentira existe por que as pessoas esperam ouvir a verdade.

Se o livro foi publicado, o que o leitor espera? Que ele tenha sido bem editado, que o autor tenha se preparado para realizar o trabalho de transmissão de conhecimento, que tenha sido realizado um bom trabalho de revisão, que a editora tenha bem selecionado o autor que irá publicar. Há uma relação de confiança imediata aqui.

Resumindo, visto que você, como autor, será levado a sério e suas palavras guiarão o leitor em sua vida profissional (podendo gerar grandes prejuízos), se a editora for incompetente em seu trabalho ou o autor um aventureiro, estamos lidando com perigosos irresponsáveis.

(sim, você leu bem: estou te chamando de fanfarrão)

Autor e editora são responsáveis pelo trabalho de merda que podem produzir, e acho tristíssimo o fato de ser uma das poucas pessoas que levantam esta questão aqui, mas talvez eu seja uma pessoa exigente demais…

Sou um sujeito exigente?

Pouca gente lembra hoje, mas minha vida profissional começou literalmente entre livros. Eu era livreiro (vendia livros), depois o primeiro produto comercial da itexto foi um ERP vertical para Livrarias, Editoras, Bibliotecas e Distribuidoras de Livros (Plataforma Livreiro) e, no meio do caminho fiz o curso de Filosofia (pasme, pensando em vender mais livros), cuja parte prática é essencialmente o esforço de pesquisa necessário para que livros possam ser escritos e depois publicados.

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Resumindo: conheço de ponta a ponta o processo que se inicia na pesquisa, evoluí para a escrita, trabalho editorial, comercial e posterior conservação e manuseio do livro que você comprou e guarda em sua prateleira. Este é meu aspecto bibliófilo.

Na outra ponta sou também um empresário que contrata programadores, e que fica horrorizado a cada processo seletivo com a baixíssima qualidade da formação que as novas gerações estão obtendo. Formação esta que vêm não só dos cursos, mas também daquilo que se lê, daquilo que se vê e ouve em eventos.

(tenho um post quase pronto com o seguinte questionamento: como saber quem nos forma?)

Sendo assim, dado que conheço tanto o esforço necessário para se escrever um livro de qualidade (diga-se de passagem, escrevi dois) quanto das consequências de más publicações para o leitor, digo que não sou um leitor exigente, mas sim…

Alguém agindo de forma ética ao não se omitir em relação a algo que sabe trazer problemas imensos para nossa área.

“Há livros ruins por que há quem os compre”

Serei curto e grosso: esta afirmação é covarde e desonesta.

Covarde por que livra da culpa maus autores e editoras e a transfere ao consumidor. Se “esquece” que, tal como disse acima, o leitor ao adquirir um livro espera qualidade e só descobre depois (se tiver sorte) que comprou merda.

Desonesta por que tira das editoras e autores a responsabilidade de formar o leitor, lhe fornecendo as ferramentas necessárias para que possa avaliar o material antes de comprá-lo. Tira-se proveito da confiança do leitor.

Quem afirma este absurdo se esquece (ou omite) algo essencial: leitura é formação, e formação não é um produto cuja qualidade “possa” vir em diferentes níveis. Formação molda mentes, define seu futuro.

(por que não permitimos que um médico irresponsável nos opere mas não gritamos quando nossos filhos tem contato com maus professores e livros?)

A qualidade do livro técnico surge no autor, é validada pela editora e transmitida ao leitor. Este, o elo final da processo, deve ser acostumado não a consumir bobagens, mas sim material de qualidade para que, por sua vez, ao ser bem formado, possa ter o ferramental intelectual para detectar trabalhos ruins, minimizando assim o risco de que sejam publicados.

(Meu medo de um mundo sem editoras é justamente a proliferação de livros muito ruins, o que acabaria por ferir mortalmente a importância do livro técnico em si. Tutoriais e apostilas jamais deveriam substituir o livro.)

E aqui cabe algumas perguntas: se o mercado possibilita publicações ruins, quem ganha com isto no curto, médio e longo prazo? Qual o maior benefício (sempre há pelo menos um) em termos técnicos ignorantes? Por quanto tempo conseguiremos nos manter enquanto incentivamos a ignorância da nossa mão de obra?

Culpar o mercado ou o crítico é omissão

Material ruim ser publicado é um sintoma de algo mais grave: uma má formação geral  assolando nossa área. Não é apenas “ah… tem gente que gosta, por isto é vendido” ou “este cara é muito chato, tem muito livro vagabundo que quebra o galho e bem”.

Se o livro técnico é ruim, não temos uma editora pilantra e um autor picareta (na maior parte das vezes). Temos gente com formação ruim (aonde jamais poderia haver), que realmente acredita estar fazendo algo de qualidade e que valha à pena para seus leitores.

Os leitores, por sua vez, que serão as pessoas formadas por este conteúdo, acidentalmente acabam crendo naqueles que não sabem. Pieter Bruegel ilustrou bem esta situação no século XVI ao pintar a parábola dos cegos.
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PS:

O leitor tem lá sua parcela de culpa ao comprar livros ruins? Creio que dependa de sua formação. Mesmo que tenha lá sua fatia, com certeza é a menor: o aluno para criticar seu mestre precisa primeiro saber o que é bom.