Category Archives: livros

O desenvolvedor, os paradigmas e as revoluções científicas

Thomas Kuhn

Thomas Kuhn

Mais um livro para ser incluído na lista das minhas boas leituras de 2013: “A Estrutura das Revoluções Científicas” de Thomas Kuhn. Meu primeiro contato com o texto se deu em 2001 quando prestei vestibular para Filosofia na UFMG, mas naquela época só li um trecho e acabei deixando-o de lado. Somente neste finalzinho de 2013 pude lê-lo na íntegra e talvez tenha sido A grande leitura do ano. Bom: antes tarde do que nunca, e neste post vou expor o paralelo que encontrei com a nossa realidade (parece que escreveu para nós).

(aviso: este é um post denso)

De que trata este livro?

Link para o livro na editora Perspectiva

Link para o livro na editora Perspectiva

É tratada a história da ciência. Não é a narrativa de como esta evoluiu, mas sim uma crítica ao modo como até 1962 se pensava a história da ciência. Kuhn rompe com a idéia de que a evolução da ciência seja acumulativa, ou seja, que o crescimento científico se dá apenas através do acúmulo de novos conhecimentos. Não: para Kuhn de tempos em tempos ocorre uma espécie de “reboot” teórico que transforma profundamente a visão que temos do mundo e o modo como fazemos ciência.

Este reboot se dá através da substituição do paradigma corrente. Bom: o que é um paradigma? Para Kuhn é todo grande feito científico que trás resultados até então nunca obtidos (de grande magnitude) e que provê um novo ferrametnal sob a forma de teorias, metodologias e pré-concepções. Este ferramental, esta nova visão de mundo é adotada pela geração corrente e posterior de cientistas, que o usa para resolver os problemas deixados em aberto.

Os cientistas que adotam o paradigma compõem uma comunidade que o autor chama de ciência normal que, por sua vez, tem seu modo de trabalho descrito de uma forma bastante interessante e próxima a nós. Seu trabalho consiste em resolver quebra-cabeças. O problema se apresenta como uma série de peças que encaixamos com o objetivo de formar uma imagem coerente com o paradigma vigente. Para tal já temos todo um ferramental pronto que na prática apenas adaptamos conforme novas dificuldades vão surgindo. Usamos a teoria x, y e z junto com as preconcepções a, b e c usando a metodologia plus e pronto: a imagem se forma, coerente com esta visão de mundo.

Mas há anomalias, anomalias estas que não conseguem ser tratadas pelo paradigma corrente. Inicia-se uma crise: nosso ferramental não é mais tão poderoso quanto imaginávamos e então surge uma nova visão de mundo, um novo paradigma que explica melhor estes fatos horrorosos. E assim inicia-se a revolução científica. Um bom exemplo é a astronomia Ptolomaica, que via o céu como algo basicamente estático. Tudo ia bem até começarem a prestar mais atenção nos cometas. Como explicá-los? Surge o novo paradigma com Copérnico, e com isto o problema se resolve com um novo ferramental. A Terra cede o centro ao Sol, não mais é estática, mas móvel, assim como os demais planetas.

Um pato? Um coelho? Ambos?

Um pato? Um coelho? Ambos?

O grande soco me veio no capítulo 9: “As Revoluções Cientíticas como Revoluções na Concepção do Mundo“. A revolução científica é mais profunda: com ela um novo mundo surge. Dois cientistas, cada qual com seu paradigma vêem o mesmo objeto de formas completamente distintas (como este pato/coelho ao lado). Enquanto o céu é estático para Ptolomeu, para Copérnico é algo dinâmico. Ei: falo sobre isto há anos aqui no blog. Lembram quando eu escrevia sobre determinismo linguístico?

E eu, desenvolvedor, o que tenho a ver com isto?

Conforme lia o texto via meu desenvolvimento profissional. Meu primeiro paradigma era o procedural: via o sistema como uma série de módulos compostos por funções e rotinas (alguém ainda usa esta palavra, rotina?). De repente meu paradigma mudou, os sistemas ficaram maiores, eu precisava de algo melhor para lidar com aquela complexidade, veio a orientação a objetos, e com ela fui mudando aos poucos minha visão procedural para uma orientada a objetos. (já escrevi sobre esta experiência aqui)

Me lembrava dos momentos de crise nos quais a minha linguagem corrente (Visual Basic ou Delphi) não mais me atendia quando a web nos engoliu. A Web era em si um paradigma completamente novo para todos nós. Inclusive no sentido de Kuhn: resolveu uma série de problemas (como o de instalação, por exemplo) e ao mesmo tempo criou uma ciência normal, formada por uma nova categoria de programadores, os programadores web (ou frontend, ou webmasters ou o nome que melhor se encaixar).

No livro de há um capítulo sobre estas crises, o sexto, entitulado “As Crises e a Emergência das Teorias Científicas”. Troque “Teoria Científica” por “Ambiente de Desenvolvimento” em sua leitura e verá que, se já passou por isto, o texto trata exatamente da mesma situação. Não há uma troca imediata: antigos hábitos vão se misturando a um novo modo de trabalho e com ele o que realmente valia à pena se mantém, e o que não se adequa é eliminado. É um período de crise profissional (termo usado por Kuhn em 1962) acompanhado de imensa insegurança. “O que será de mim? Estou obsoleto? Conseguirei aprender isto? Será que esta novidade não é mera picaretagem ou hype?”.

É fascinante, por exemplo, no texto de Kuhn, ler a imensa resistência que emerge diante dos novos paradigmas. Digo uma coisa: EXATAMENTE o que vêmos quando apresentamos uma nova ferramenta ou paradigma de desenvolvimento. Impressionante como um texto de 1962 consegue descrever em detalhes o nosso dia a dia.

grails_logo

Penso em Grails: quando surgiu mudou radicalmente o modo como eu via o desenvolvimento Java EE. Era a emergência do conceito de convenção sobre configuraçãonão se repita e tantos outros em uma comunidade acostumada a um modo de trabalho absolutamente diferente.

Seria o Node.js sinal da emergência de um novo paradigma?

Seria o Node.js sinal da emergência de um novo paradigma?

Pensem em Node.js: é uma visão completamente diferente da que estamos acostumados. Javascript do lado servidor? E numa thread única??? E ainda por cima  funciona??????  E toda uma gama de anomalias que eram difíceis de serem resolvidas com outras abordagens de repente são resolvidas de formas mais simples. É um novo paradigma surgindo? Talvez: o tempo dirá. Após a leitura do Kuhn está me parecendo um. Nâo o Node.js em si, mas talvez o modo de trabalho.

É interessante que no texto de Kuhn é exposto que não há também um único paradigma: muitas vezes (todo o tempo) eles convivem lado a lado. A substituição não se dá do dia pra noite, e muitas vezes se mantém lado a lado eternamente, ou mesmo um usando o outro. Exemplo: a física de Newton e a relatividade de Einstein, cada um no seu quadrado e muitas vezes dando as mãos. Penso que em tecnologia é a mesma coisa: uso PHP para alguns casos, Grails em outros, Node.js em algumas situações e por aí vai.

Concluindo

“Cientistas”, desenvolvedores, bruxos, são todos a mesma coisa. Terminada a leitura do livro vi que ia muito além da “mera” história da ciência. É o modo como encaramos as mudanças que atropelam nossas vidas e alteram nossa visão do mundo que muitas vezes acreditamos ser tão sensata, tão segura.

É um livro que deveria estar na prateleira de todo programador, qualquer um que trabalhe com desenvolvimento ou qualquer outra área. Ao final acredito que nos traga humildade e também um alívio: as anomalias são a janela para um novo mundo. É só saltar por ela.

PS:

Muito obrigado a todos vocês por este ano de 2013 que foi sem dúvidas o melhor ano da história deste blog e que acabou redefinindo minha própria opção profissional (será cada vez mais literária).

Sem vocês isto não seria possível. Nunca imaginei em 2008 que teria tantos leitores como hoje e que estaria tratando de assuntos tão diversos! Vocês não fazem idéia do tanto que isto me incentiva a continuar.

(e acreditem, continuo e ano que vẽm a coisa será ainda mais intensa)

Feliz 2013 a todos vocês. :)

Vire o Jogo com Spring na coleção Frameworks Java da Casa do Código!

fwj-thumb-large_large_large

Hoje recebi uma notícia muito bacana do pessoal da Casa do Código:  meu livro “Vire o Jogo com Spring Framework” está agora incluído na coleção “Frameworks Java” da editora!

É uma promoção bem bacana: você compra três livros: “Aplicações Java para web com JSF e JPA”,  “Vire o Jogo com Spring Framework” e “VRaptor” com 15% de desconto, ou seja, sai por R$ 74,90.

E ah… também pra contar um negócio massa oficialmente. Já estou com o meu próximo livro em andamento. Sim: Groovy e Grails, de uma forma bem diferente do que você poderia imaginar. Mais novidades em breve. :)

A Web Mobile do Sérgio Lopes: livro massa!

WebMobile-280_large

Link para o site do livro

Na pesquisa para o projeto “Grails Brasil 3” encontrei uma pérola: o livro “A Web Mobile” do Sérgio Lopes publicado pela Casa do Código. O objetivo inicial da minha compra era simples: preciso saber algo sobre design responsivo com urgência pois este é um dos pilares do novo Grails Brasil, então navegando pelo site da editora topei com este, o preço era bom (R$ 29,90 o ebook) e o título parecia ser exatamente o que eu precisava. Como todo bom afobado nem li o prefácio, o que acabou me gerando uma surpresa bem agradável: este ebook é recheado de “brindes”!

Eu só queria entender como funcionavam as tais media queries, viewport e um truque ou outro mas acabou que o livro ia BEM além disto. Não é um tutorial disfarçado de ebook. É exatamente o que busco em um livro técnico: os assuntos são tratados com profundidade e o autor não sofre de “cortesia crônica”, ou seja, quando é pra ser direto (e às vezes até duro) ele o é sem medo, e isto é raríssimo aqui no Brasil aonde muitos temem que ao criticar algo você irá magoar alguém.

(Se o livro trás o leitor para um diálogo e nesta experiência muda suas pré-concepções, vale muito à pena. E se o autor discorda do que você pensava até então, MELHOR ainda! É o caso aqui.)

O livro é dividido em quatro partes: a primeira, chamada “Estratégia mobile” é aquela que, acredito, jamais irá se tornar obsoleta. O nome já diz: são as opiniões (AMO quando um autor SAI do meramente técnico e opina) do autor a respeito do que você deve pensar ao optar ou não por uma estratégia mobile. Será que realmente vale à pena uma aplicação mobile em todo caso? Diversos conceitos são tratados nesta parte do livro e por si só já justificaria a sua compra.

Para alguém como eu que está se iniciando no assunto o conceitual é fundamental e aqui é bem tratado. Eu tinha algumas dúvidas relativas às aplicações híbridas, por exemplo. Era um caminho que estava pensando para o meu projeto. Após a leitura e me questionando um pouco percebi algumas falhas neste caminho e acabei pulando fora deste caminho, possívelmente me economizando muito tempo e dinheiro.

A parte 2 se chama “Programando a web moderna”. Numa boa? Este é que deveria ter sido o título do livro, por que daqui pra frente o que vi foi um processo de atualização do modo como eu usava diversos recursos do HTML, Javascript, CSS, etc. É nesta parte que são tratados dois dos pilares do design responsivo: layouts fluídos e media queries. O priemiro não foi novidade pra mim, mas com certeza o restante sim. Foi muito massa finalmente entender como funciona o viewport, por exemplo.

A parte 3 se chama “A Web Adaptativa”: novamente bastante interessante, especialmente nas soluções apresentadas para o problema do tratamento das imagens (o terceiro pilar do design responsivo: “recursos flexíveis”). Algo que acho muito bacana no decorrer do livro inteiro é que não são apresentadas as malditas “soluções perfeitas”, isto é, quando uma é exposta, sempre vêm junto suas limitações, o que ajuda bastante o leitor na hora de decidir-se entre um caminho ou outro. Neste capítulo percebi este aspecto de forma bem acentuada.

Finalmente tem a parte 4: “Gestos e entrada de dados”. Novamente aprendi coisas bacanas aqui. Você irá aprender como lidar com gestos usando javascript, um detalhe que, devo confessar, simplesmente passava completamente batido por mim até a leitura desta seção. Muito provávelmente se não tivesse passado por esta parte do livro o “Grails Brasil 3” teria uma lacuna MONSTRUOSA de usabilidade.

Nesta seção 4 há um capítulo interessantíssimo chamado “Desafios de UX em interfaces touch” que me fez repensar completamente como será o novo Grails Brasil. O final do capítulo também é uma atualização bacana para aqueles que ainda não experimentaram os novos tipos de input fornecidos pelo HTML 5.

(Há uma seção 5 também, mas composta por um único capítulo de conclusão)

Concluindo

Normalmente passeamos por livarias e somos imundados por excelentes livros técnicos escritos por autores estrangeiros. A sensação de topar com um  livro nacional que esteja no mesmo patamar (talvez até acima) do que vemos ser publicado fora do Brasil pra mim pelo menos é fantástica.

Minha única crítica o próprio autor concorda no prefácio que não li em minha afobação: o título do livro. É mais que “simplesmente” a web mobile: sua leitura equivale a um upgrade para aqueles que ainda não se aprofundaram no que o HTML 5 tem para nos oferecer.

Como todo livro da Casa do Código, você o compra pelo site. Aqui o link.

PS: alguns poderiam dizer que estou escrevendo isto só por que tenho um livro publicado pela Casa do Código.  Escrevo por que fiquei extremamente feliz ao terminar a leitura do livro e ter percebido que cresci HORRORES finalizada sua leitura. Precisamos de mais Sérgios Lopes e “Casas do Código” pra alavancar livros técnicos nacionais de qualidade como este.

PS 2: e também por que quando eu gosto quero que todo mundo conheça a coisa. Confesso! :D

Pirateando livros e ferrando o Brasil

piratas

Escrever um livro mudou profundamente a visão que eu tinha a respeito da pirataria e após longas conversas com amigos e Nanna chegamos a conclusões bastante interessantes.

Como é escrever um livro

Minha experiência pessoal possivelmente é similar à de diversos autores. Foi um trabalho hercúleo no primeiro e está sendo ainda maior no segundo (e terceiro). Pra começar faço a melhor pesquisa bibliográfica que conseguir (e acreditem, sou muito bom nisto (é um dos usos práticos do curso de Filosofia)). A leitura mínima para uma publicação gira em torno de umas 10.000, 20.000 páginas contando artigos, livros, posts em blogs, anotações, código-fonte e muito mais. De fichamento para o meu primeiro livro  tenho algo em torno de umas 1500, 2000 páginas (fichamento). (e sim, há um forte investimento financeiro na obtenção deste material)

O estudo é a parte fácil e enriquecedora da coisa: logo em seguida vêm a escrita. E posso lhes dizer: dói. São noites sem dormir, dias com idéias fixas e insights que soam geniais no primeiro momento para se mostrarem cretinos no dia seguinte. Entram aí terríveis bloqueios, horas  inerte diante de um teclado. É o período no qual dou graças aos céus por ter me casado com alguém que me entende e incentiva, pois não acredito que outra pessoa me suportaria.

Yeap: você passa a pensar duas vezes antes de piratear qualquer coisa, e depois de sentir na pele como eu senti ao ver minha “criança” sendo pirateada no Mercado Livre você está vacinado contra pirataria.

“Justificando” a pirataria

Só há uma justificativa para a pirataria: é fácil e você não pensa no produtor. É simples assim: nós apenas queremos ter acesso á música, livro, jogo, etc da forma mais barata possível. Recentemente em uma discussão vi uma série de argumentos comuns que vale muito à pena destruir aqui.

“Quem nunca pirateou que atire a primeira pedra. Seu hipócrita, você não tem moral alguma pra dizer algo contra o ato de piratear porque também já o fez”

Há tanta coisa errada neste argumento que sou obrigado a me focar em apenas alguns detalhes. O primeiro é o fato deste ser baseado em um mundo estático. Se cometi um crime no passado e depois percebi que estava errado (e de preferência paguei pelo prejuízo causado) sim, eu posso recriminar a prática o tanto que eu quiser. Uma vez errado não implica em sempre errado. É como impedir um viciado de falar sobre os males que o vício causa.

E outra: na minha opinião justamente quem pirateia é que deve discutir o assunto para que, no diálogo com o mercado, este possa pensar em alternativas para minimizar o problema sem ferir o consumidor.

“Não vale o preço cobrado.”

O que acho mais interessante neste argumento é que raríssimas vezes o vejo acompanhado de uma justificativa que comprove o elevado preço do objeto. Interessante que, mesmo se viesse, ainda não justificaria o roubo e, se o justificasse, tornaria o furto quando executado pelos menos favorecidos um ato heróico.

Se realmente for muito caro você não precisa roubar a coisa: apenas espere para que o próprio mercado obrigue o fornecedor a baixar o valor não pagando por esta. Há ainda os que acreditam que toda produção cultural deva ser distribuida gratuitamente, como se escrever um livro, compor uma música ou pintar um quadro não fosse trabalho digno de remuneração.

“Em um país como o Brasil criticar a pirataria não faz sentido.”

Interessante: então quer dizer que existem países nos quais a pirataria deve ser a norma? Discordo: justamente por estarmos no Brasil aonde a pirataria impera é que devemos criticar e discutir ao máximo possível a prática.

Há um aspecto filosófico muito interessante neste argumento: implícitamente ele diz que o “bom” é aquilo feito pela maior parte das pessoas, tipo um “maria vai com as outras moral”. A liderança assim como as revoluções positivas normalmente surgem quando alguém se opõe a um movimento que claramente só trás danos.

Por que pagar se posso ter de graça?

Este é o argumento mais difícil de bater. O máximo que posso fazer é expor a razão pela qual vale à pena pagar. Pagando você incentiva a produção: com mais gente comprando você pode baixar o preço. Muitos vão dizer que não é sempre o caso (vide Apple), mas quando falamos de produção literária, sim, é o caso.

Eu por exemplo penso sériamente em viver da escrita, não o faço (ainda) em grande parte devido à pirataria que inviabiliza muita coisa. Fico pensando na maravilha que seria uma O’Reilly investindo no mercado nacional. Agora: como justificar para um estrangeiro o risco de apostar em um país em que as pessoas acham natural compartilhar em redes sociais e-books?

E posso dizer isto por já ter sentido na pele como fornecedor também. Meus últimos clientes no mercado livreiro de distribuição fecharam por não conseguirem competir com a pirataria digital (tablets). Então sim: a pirataria está trazendo problemas reais.

Você paga pelo que poderia obter de graça por que quer viver em um país melhor e mais culto. Por que gostou do que o “otário” produziu e quer ver qual será sua próxima novidade, por que você quer se encontrar com ele e não sentir lá no fundo vergonha por ter lhe passado a perna.

#pronto_falei

Update 20/7/2014

Novamente passei por uma situação desagradável envolvendo pirataria do meu trabalho. Me foram expostos uma série de argumentos a favor da pirataria inclusive. Argumentos estes que não se sustentam, o que me fez escrever um novo post sobre o assunto que pode ser acessado neste link.

Pequeno adendo: 13/7/2013: 8:30

Quando as pessoas dizem que pirataria tira empregos normalmente parece que é algo longe de nós, mas no meu caso é bem próximo. Uma das razões pelas quais a plataforma Livreiro que desenvolvi no início da minha carreira simplesmente acabou foi por causa da pirataria que os tablets propiciaram aqui no Brasil. Então, sim: tá aí um exemplo real da consequência.

 

Minhas boas leituras de 2012

Este foi um ano de leitura intensa em grande parte devido à publicação do meu primeiro livro “Vire o Jogo com Spring Framework”. Nada mais natural que a maior parte do que li tenha sido sobre Spring (inclusive postei parte da bibliografia neste blog, que pode ser acessada aqui). Mas não precisa pular este post pois este não é mais um sobre o meu livro, mas sim sobre as leituras que não estão diretamente relacionadas a este. Segue abaixo a lista dos livros que mais me influenciaram neste ano.

The Mythical Man Month – Fred Brooks

A pergunta que fica após seu término é: “por que as pessoas não lêem isto?”. Este livro é o resultado das experiências de Fred Brooks enquanto gerente do projeto System/360 da IBM, que provávelmente foi o maior projeto de TI da história, e um dos responsáveis diretos por tudo o que temos em computação hoje. É neste livro que ficam provados pontos importantes no mercado de software como a inexistência de uma bala de prata (agregado na segunda edição do livro) e o fato de que adicionar mais mão de obra em um projeto apenas o atrasa.

É leitura obrigatória para todos nós que trabalhamos com desenvolvimento e evolução de sistemas. Fica nítido durante sua leitura que a maior parte dos argumentos tidos como “bom senso” em projetos de software são na realidade falácias horríveis. Se você for da área técnica, leia este livro para ter argumentos contra este tipo de armadilha. Se for gerente, leia-o para não fazer papel de bobo diante da sua equipe.

Beautifull Architecture – Diomidis Spinellis e Georgios Gousios

Este livro da O’Reilly, que segue a mesma linha do “Beautifull Code” foi um achado. É composto por uma série de capítulos nos quais cada um ilustra uma solução arquitetônica adotada em projetos muito variados, que vão desde sistemas para gerenciamento de fotografias até sistemas complexos como por exemplo o XEN, passando por softwares muito populares como o Emacs. É fascinante conhecer como estes projetos são organizados.

Foi uma fonte de inspiração tremenda em diversos sistemas nos quais atuei. Se você estiver perdido em um projeto novo, tenha este livro como uma possível bóia salva-vidas. Uma leitura rápida por seus capítulos com certeza lhe trará idéias e insights para o seu trabalho.

Se você não faz a menor idéia a respeito do que venha a ser arquitetura de sistemas, recomendo a leitura da sua primeira parte. É uma descrição muito interessante e leve sobre o assunto.

Moby Dick – Herman Melville

Foi o romance do ano! Comecei a sua leitura sem esperar muito: o  fato de serem dois volumes já se mostrou um desafio inicial, mas conforme ia me afogando na descrição que Melville faz da vida dos pescadores comecei a temer o fim das páginas.

Descrições muito longas e detalhadas: sendo assim, se não for este o seu tipo de leitura você com certeza odiará cada palavra. Agora, se não for o caso, muito provávelmente estou falando aqui de uma das melhores leituras da sua vida. Havia momentos em que eu literalmente sentia o cheiro do mar e as ondas chocando-se contras as paredes da minha cobertura. Fantástico!

Ao que tudo indica todo ano há um romance que guia minha vida e este foi o da vez. Minha “Moby” se chamava “Spring”. Vai de ônibus para um trabalho chato? Esta é A leitura!

Assédio Moral no Ambiente de Trabalho e a Política Empresarial de Metas – Rafael Moral Carvalho Pinto

Ano passado li um livro fascinante chamado “Mal Estar no Trabalho – Redefinindo o Assédio Moral”, de Marie-France Hirigoyen. No caso, havia sido uma indicação do próprio Rafael, que na época estava trabalhando em sua dissertação de mestrado, que mais tarde foi publicada como livro pela editora RTM. Digo com muita segurança que foi a leitura que me causou maior impacto em 2012. É um assunto que infelizmente não faz parte do nosso dia a dia por ser de ordem jurídica mas que, ao menos na minha opinião, deveria estar na pauta de todos os interessados na criação de um ambiente de trabalho produtivo e eficiente.

Rafael – que é sócio da minha esposa Nanna – trata aqui da questão das metas e o modo como estas acabam por gerar um ambiente dentro das empresas que propicia a ocorrência do assédio moral. Após sua leitura fica bastante claro que o assédio moral infelizmente é muito mais próximo de nós do que imaginamos.

Dos livros que citei é o único cujo acesso você pode ter agora. A dissertação de mestrado que deu origem ao livro pode ser lida neste link. E a palestra de lançamento você pode ver abaixo:

Acho este assunto tão importante que consegui convencer o Rafael a postar neste blog em 2013 um artigo sobre este assunto voltado para a nossa área. Legal né?

Concluindo

Li pouca coisa que não fosse sobre Spring neste ano, e provávelmente a mesma coisa ocorrerá em 2013 também (Grails agora, e talvez um outro assunto aí ;) ). O importante é que tenhamos leituras que estejam fora do nosso escopo direto de trabalho. São estas atividades que nos ajudam a ficar menos bitolados e assim nos tornar pessoas melhores.

Feliz 2013 para todos vocês! Muita novidade boa está por vir por aí e todas serão compartilhadas com vocês.

A estética do software

Recentemente reli A Beleza das Máquinas de David Gelernter: um livro cujo tema dentro da ciência da computação é raríssimo: estética, que sempre foi um dos meus assuntos preferidos (tente definir o que é de fato o “belo em si” e provávelmente você também se apaixonará pelo assunto).

A primeira vez que li este livro foi em 2002 (publicado no Brasil em 2000) e esta releitura foi fascinante pelo fato de que tanto o mundo como eu mudamos radicalmente de lá pra cá. É nítido um certo deslumbramento com os “computadores de mesa” presente no texto, o que chega a ser engraçado para nós, que vivemos em uma sociedade na qual os mesmos começam a sair de cena ao serem substituídos por telefones celulares com os quais sequer sonhávamos em 2000. Por outro lado, as asserções estéticas do autor continuam válidas: e como!

A tese consiste no fato de que sim: o problema estético também se aplica à ciência da computação. Porém, ao contrário da estética geral com a qual já estava acostumado, e que nunca conseguiu definir o belo com exatidão, no contexto do software esta é cirurgica. É belo no software o conciso e simples, ou seja, quanto mais bem definida for a função do mesmo, e mais simples for o seu uso, melhor será a nossa experiência estética. Parece óbvio, não é mesmo?

Como ameaça à beleza de um produto, o autor aponta um mal que aflinge a nós desenvolvedores: a nossa tendência quase irracional de incluir novos recursos em nossos produtos, aumentando assim significativamente o seu escopo de utilização e, como consequência, sua complexidade. O exemplo apontado é o Word que inicialmente era um processador de textos simples e fácil de usar mas que, com o passar do tempo, e a inclusão de novos recursos, foi se tornando cada vez mais complexo e distante do seu objetivo original: editar textos.

Trazendo esta releitura para os dias atuais, não pude deixar de fazer algumas comparações com softwares/sites/serviços que utilizamos atualmente e me perguntar: belo ou feio? O software/serviço é portanto considerado belo se for respondido “sim” a duas perguntas: o seu objetivo é simples e bem definido? é fácil de usar?. A segunda pergunta parece ser subjetiva demais: sendo assim, imagino minha mãe usando os produtos abaixo.

Dropbox (www.dropbox.com):
Objetivo: compartilhar e sincronizar arquivos entre diferentes computadores. Mais simples impossível.
Fácil de usar? Demais: tudo o que preciso fazer consiste em armazenar os arquivos a serem compartilhados em um diretório específico.
Veredito: lindo

Google:
Objetivo: encontrar conteúdo na web. Simples.
Fácil de usar? Sim, é só digitar o que se deseja encontrar.
Veredito: lindo.

Twitter:
Objetivo: possibilitar às pessoas publicarem suas idéias em apenas 140 caracteres e acompanhar outros usuários do serviço. Simples.
Fácil de usar? Nem tanto: todas as pessoas que conheço que ficaram viciadas no serviço utilizam algum cliente para acessar o serviço ao invés do próprio site.
Veredito: bonitinho (quase feio. os clientes são até belos, mas o pai deles nem tanto)

Firefox:
Objetivo: navegador web. Simples.
Fácil de usar? Sim, não há grandes complicadores no navegador. No entanto, com a inclusão de plugins o bichinho acaba se tornando um monstrinho cheio de coisas piscando pra você o tempo inteiro.
Veredito: belo com tendência a Michael Jackson.

Planilha eletrônica:
Objetivo: criar tabelas com células interligadas ou não entrei si visando calcular valores e prever resultados ou simplesmente organizar informações no formato tabular. Posteriormente, acabaram em inúmeros casos sendo usadas como aplicações ou bancos de dados. Simples? Nem um pouco!
Fácil de usar? Conheço poucas pessoas que dominem de fato o uso do Excel.
Veredito: horrívelmente deformado pelo mal uso

Um ponto interessante no texto é a dificuldade que a beleza do software possui de ser aceita. Segundo o autor, esta dificuldade seria resultante do fato de softwares estéticamente agradáveis serem considerados “brinquedos” pela maioria (“afeminados” é a palavra usada pelo autor) e, portanto, não serem levados a sério. E é ai que as coisas melhoraram.

Observando todo este buzz sobre Web 2.0, o que podemos observar é que sim: as aplicações estão mais simples e também mais fáceis de serem usadas. Logo, o software atualmente é mais belo E, a resistência citada pelo autor foi vencida, o que beneficia muito a nós, usuários, e também a mim, que não vou precisar gastar horas explicando minha mãe a como usar estes serviços. :)

PS: vale a pena comprar o livro hoje? Só se for pra ver como era o mundo antes do ano 2000. Ele se resume em apenas dois fatos: software belo é conciso e simples E há dificuldade em se aceitar esta beleza (esta segunda tese nem sequer vale mais tanto assim)