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Quando o comentário realmente documenta o código

Como alguém que lida com muito código fonte que não é de minha autoria, neste post vou listar algumas dicas para tornar seus comentários no código realmente úteis. São hábitos simples que, se bem seguidos, tornam a vida de quem manterá aquele sistema mais fácil e, portanto, aumentam a produtividade de toda a equipe.

Naturalmente, não irei incluir aqui todas as dicas possíveis, razão pela qual no final deste post irei citar algumas boas dicas de leitura sobre este assunto.

Não vou falar do óbvio: “o comentário deve dizer o que aquele método ou classe faz” ou “comentar o óbvio é bobagem” ou “comente apenas o necessário” pois, convenhamos, é chover no molhado ou mero “preenchimento de linguiça”.

Tudo é história

Todo software é gerado dentro de um contexto: a situação da equipe no momento em que foi criado, quem o escreveu, assim como seus conhecimentos naquela época, quais as tecnologias estavam em voga, etc.

Conhecer este contexto é muito importante para compreender as razões pelas quais o código se encontra em sua situação atual. Infelizmente, na esmagadora maioria das vezes em que encontramos o código pela primeira vez só temos conhecimento do seu estado atual se ignorarmos seu histórico no sistema de controle de versões (seja sincero, quantas vezes já percorreu aquele histórico ao ter seu primeiro contato com uma base de código pré-existente?).

Lidando com o passado – reconstruindo o histórico perdido

 

Comentários podem ajudar e muito aqui. Neste momento entra a primeira dica: use um sistema de controle de issues e replique informações deste sistema nos seus comentários. Como fazer isto? Basta mencionar o número da issue em seu comentário. Seguem alguns exemplos:


/*
Classe responsável pelo envio de e-mails no sistema /* (isto é óbvio) */
Issue na qual se encontra documentado o requisito que deu origem ao
requisito: http://meusistemadeissues/issue/825
*/
class EmissorEmail {

É bastante simples: com isto seus comentários não ficam imensos e quem estiver dando manutenção no sistema poderá entender melhor o contexto no qual aquele código foi criado. Um excelente local para se incluir este tipo de comentários é em código no qual você esteja corrigindo um bug, tal como no exemplo abaixo:

int diasEntreDatas(Date dataInicial, Date dataFinal) {
/*
Havia um erro no código abaixo que não considerava sábados e domingos,
gerando resultados inválidos.
Issue: http://seusistemadeversoes/issue/847
Alterado por Henrique Lobo - 1/3/2016 - 14:20
*/
}

Entra a segunda dica: assine seus comentários. Com isto, caso alguém encontre problemas no código que você alterou, poderá lhe procurar para obter maiores informações a respeito daquela situação que, talvez, não se encontrem documentadas no seu sistema de issues ou qualquer outra fonte de documentação.

Mais do que assinar os comentários, creio que também seja muito importante incluir a data e hora no mesmo. Isto contribuí para entender o contexto histórico daquela alteração e muitas vezes agiliza ao extremo a compreensão do problema e aplicação da solução. Esta portanto é minha terceira dica: date seus comentários.

Três dicas simples relacionadas ao histórico que, se aplicadas em conjunto, facilitarão demais a vida de todos:

  • Use um sistema de issues e o referencie em seus comentários
  • Assine seus comentários para que as pessoas possam lhe procurar (quem não tem culpa no cartório não se esconde)
  • Sempre inclua uma data nos seus comentários para saber quando a alteração foi realizada

Lidando com o passado recente

Há também aquelas situações nas quais você fez uma alteração no código mas não se sente 100% seguro a seu respeito, mesmo que tenha escrito testes para validar o comportamento esperado. É normal e te entendo perfeitamente. Nestes casos, não há problema algum em deixar comentada a versão anterior do código apenas para comparação com o que você fez, tal como no exemplo a seguir:


int soma(int x, int y) {
return x + y;
/*
Acho a versão anterior pura frescura, por isto substituí pela
minha alterantiva melhor otimizada e que não usa ifs!
Issue: http://www.meusistemadeissues.com/issue/13
Henrique Lobo - 2/2/2012 - 13:13
return (x > Integer.MAX_VALUE || y > Integer.MAX_VALUE) ? -1 : x + y;
*/
}

Lidando com o futuro (usando lembretes)

Muitas vezes a pressão do dia a dia faz com que precisemos incluir débitos técnicos em nossos sistemas. É normal: no futuro você vai resolver estas questões (se se lembrar delas).

A maior parte das IDEs hoje, além de sistemas de análise estática de código como o SonarQube oferecem suporte a um tipo especial de comentário: o “TODO”. Nunca o viu? É simples: vamos a um exemplo rápido e completamente fora da realidade.


boolean autenticar(String login, String senha) {

/*
TODO: meu gerente me obrigou a isto para o release 1.0.0 do sistema
Henrique Lobo - 12/3/2004 12:00
Issue: http://www.meusistemadeissues.com.br/issues/666
*/
if (login == "dede") {
return true;
}
}

Comentários do tipo TODO mostram pontos a serem melhorados no sistema. Na imagem abaixo podemos ver um exemplo do uso deste tipo de comentário no Eclipse (práticamente todas as IDEs possuem este recurso atualmente):

todo_eclipse

Mesmo que você não se lembre de ter feito o que estava no comentário, alguém do futuro saberá a respeito e poderá fazer algo a respeito.

Refatorando comentários?

Se você usa um sistema de controle de issues e assina e data seus comentários, passado algum tempo você talvez precise refatorá-los. Como assim?

De duas maneiras: você pode excluir aqueles comentários que envolvam código antigo (pois o tempo já mostrou que as alterações realizadas funcionaram) ou você pode simplesmente remover aqueles comentários que não agregam coisa alguma.

Resumindo: de tempos em tempos é uma boa prática apagar os comentários inúteis. Lembre que você tem o sistema de controle de versões e nele já está presente todo o histórico de alterações.

Não divulgue segredos

Parece estranho o que vou dizer, mas seu comentário pode expor segredos relativos à sua empresa ou contratante. Apesar de ter mencionado no início deste post que não iria mencionar o óbvio, me assusta a quantidade de informações sigilosas que programadores publicam em seus comentários. Alguns exemplos:

  • Credenciais de acesso a serviços ou servidores
  • “Recados” a outros membros da equipe – “Kico, resolva isto depois, ok?”
  • Críticas ao empregador ou outros membros da equipe
  • Críticas à natureza do próprio código fonte (isto você documenta como débito técnico no sistema de issues normalmente)

Quer um bom exemplo histórico? Algum tempo atrás vazou o código fonte do Windows 2000. Que tal ler o que a mídia da época comentou a respeito?

Lembre que remover commits do sistema de controle de versões não é uma tarefa trivial.

Boas leituras

Há dois livros muito bons que possuem capítulos dedicados aos comentários em código fonte:

Code Complete – Steve McConnell – Editora Microsoft (diga-se de passagem, o melhor livro que já li sobre programação em geral, leitura obrigatória) – Traduzido para o português pela editora Bookman

Clean Code – Robert C. Martin – Editora Prentice Hall – Traduzido para o português pela editora Alta Books

As duas traduções são muito boas e ambos são leitura obrigatória apesar da minha preferência pelo primeiro.

Concluindo

Não creio naquela história de que “a documentação do meu sistema é meu código”, no entanto, se for o caso, pelo menos bons comentários irão lhe ajudar na manutenção futura deste sistema.

Sobre minhas críticas ao “código como única documentação”, provávelmente será meu próximo post neste blog (ou quando encontrar uma forma mais polida de lidar com este assunto). :)

Eu e seu currículo: como o percebo

Uma das maiores honras da minha vida ocorreu ano passado quando uma imensa quantidade de pessoas se candidatou nos dois processos seletivos da itexto.

Nossa avaliação é composta por três etapas: a primeira é a seleção de currículos, seguida de uma entrevista técnica (que contém uma prova) e uma conversa final na presença de um profissional de RH. Infelizmente nosso tempo para avaliação é limitado, o que nos força a dispensar diversos candidatos na avaliação de currículos, e isto me incomoda bastante pois tenho certeza que perdemos oportunidades de contratação ali, muitas vezes por bobeira (nossa e do currículo).

Dado que nosso terceiro processo seletivo ocorrerá em breve, resolvi escrever este post descrevendo como os interpreto e minhas principais percepções. Vejo muitos posts com dicas do pessoal de RH sobre como escrever um currículo, mas poucos sobre como este documento de fato é manuseado por quem o recebe. Creio que compartilhar minhas percepções será útil para muitas pessoas. Talvez eu mostre algum erro que cometo neste post: sinta-se livre para me enviar suas críticas, pois são todas muito bem vindas.

Objetividade

No nosso segundo processo seletivo recebemos quase oitenta currículos. Além de avaliá-los, também temos de atender nossos clientes, e isto limita ainda mais o tempo. Alguns dos currículos que recebemos são verdadeiros artigos. Acho interessante a pessoa se esforçar em sua auto-descrição, no entanto quando o currículo é longo demais a impressão que tenho é a de que estou lidando com alguém prolixo, o que não é bom.

Se nossa vaga é para desenvolvimento de software, confesso que não me interessa tanto quais são seus hobbies e séries de TV favoritas. Este tipo de informação talvez mostre suas soft skills (falarei mais sobre isto adiante), mas dado que não lidamos com o ramo de entretenimento (ainda), estes dados não agregam.

Outro ponto importante é a atenção ao cargo oferecido. Se é para desenvolvimento e você nos envia seu currículo no qual só há experiências em outras áreas, é altíssima a chance de não te chamarmos para uma conversa. A não ser, é claro, que no texto de apresentação (sempre é útil) você nos diga que está interessado em mudar de área e demonstra real interesse pelo que fazemos e as atividades que esperamos de você aqui.

Não só a área, mas o nível de experiência pedido também deve ser levado em consideração. A vivência descrita no currículo deve estar de acordo com a que expomos na descrição da vaga.

Soft skills

A grosso modo, são suas capacidades não técnicas ou indiretamente relacionadas ao que esperamos na vaga como, por exemplo, facilidade de comunicação e trabalho em equipe. Na minha opinião a mais importante é a capacidade de comunicação, e no caso dos currículos, textos legíveisem bom português demonstram boa parte desta habilidade.

Vou ser curto e grosso: nunca vi alguém escrever em seu currículo algo negativo sobre si mesmo. Ainda não encontrei descrições como “sou preguiçoso”, “odeio gente”,  “curto ser um babaca”, “persigo meus colegas” ou coisa similar.

(a única exceção foi em uma entrevista anos atrás na qual a pessoa disse ser preguiçosa)

Descobrimos estas características do candidato em dois momentos: nas conversas que temos após a análise do currículo ou, no pior dos casos, durante o período de experiência caso seja contratado, ou seja, no texto do currículo estas descrições não agregam.

Experiências

Sempre agregam bastante no currículo quando bem descritas, especialmente quando o candidato nos conta o que costumava fazer nas empresas pelas quais passou e as realizações de que se orgulha.

Alguns currículos contém contatos para referência. Isto é muito útil, pois nos ajuda a validar quem você realmente é e também nos mostra sua segurança a respeito de si mesmo. Não é um ponto obrigatório, mas com certeza agrega bastante (e positivamente).

Qualquer experiência fora do trabalho também é muito bem vista. Exemplo: ter um blog, participar de projetos open source, palestrar, enfim, demonstrar seu interesse na área através de atividades que sejam relacionadas à área de atuação da vaga.

Claro, se for um cargo para alguém em início de carreira, não possuir experiência profissional alguma não desqualificaria o candidato, o que me faz lembrar do…

Meu primeiro mico em uma entrevista de emprego

O primeiro trabalho pago que tive na vida foi como “tomador de conta” do gabinete de um candidato a deputado federal aqui em Minas Gerais. Minhas tarefas envolviam cuidar do gabinete (varrer, manter o lugar limpo, garantir que o banheiro estava usável), receber as pessoas e passar recados. Isto e nada mais. Este trabalho durou uns dois meses.

Veio minha primeira entrevista de emprego e não sabia o que colocar no currículo, pois só tinha esta experiência. Então, escrevi: “Responsável pela administração da qualidade do ambiente do gabinete do deputado federal (ele foi eleito) Fulano de tal“. Que título lindo, pensei, e fui lá fazer minha primeira entrevista de emprego em uma livraria.

O dono da livraria (uma figura simplesmente GENIAL) olhou pra minha cara, começou a gargalhar e soltou o: “Nossa, como você é uma pessoa importante com seus 19 anos hein?”. Fui contratado, mas até hoje sou zoado por isto. Se for iniciante, evite a zoeira, muitas vezes ela pega e dura anos. :)

Exponha seus conhecimentos reais

Uma vez aprovado seu currículo, iremos validar o seu domínio nos conhecimentos citados em nossa avaliação técnica. É fundamental expor aquilo que você já conhece para nos ajudar no processo seletivo, mas igualmente importante nos contar o quanto você domina os assuntos listados.

Este é um ponto bastante delicado: como você pode expor seu domínio sobre um assunto de forma precisa? O ideal é usando alguma referência que não seja si mesmo. Vale aqui as experiências profissionais passsadas, desempenho acadêmico, publicações, blog pessoal e até mesmo pontuação em concursos e sites de desafios de programação. Se você afirma possuir, por exemplo, “sólido conhecimento em X”, de que modo esta base foi construída? “Eu acho que tenho” não é resposta.

Errar algumas questões em uma prova técnica não invalida seu conhecimento. Na realidade, sempre é dado um desconto durante a avaliação da prova, levando-se em consideração a ansiedade natural do candidato. Curiosamente, acertar também não valida o conhecimento tanto quanto se imagina, pois não é raro um acerto por sorte. Na realidade apenas a prática valida.

E justamente por que apenas a prática valida seus conhecimentos é que lhe digo: tentar burlar uma prova ou levar o avaliador na conversa e ser contratado talvez seja a pior experiência pela qual você possa passar.

Formação

Se o cargo exige alguma formação, seu currículo deve estar de acordo com a mesma. É comum incluirmos em nossos currículos certificações e treinamentos. No caso de treinamentos, é muito interessante que também seja exposto seu nível de aproveitamento no que foi ensinado.

Não há problema algum dizer que fez treinamento na tecnologia X mas nunca aplicou aqueles conhecimentos na prática ou mesmo não os assimilou como gostaria. Na realidade, isto é louvável. Quem lê em seu currículo a presença destes cursos supõe que você já domina os assuntos tratados se não fizer nenhuma observação a respeito.

Creio que não seja necessário mencionar aqui que mentir nestes pontos é uma das maiores imbecilidades que alguém pode cometer, certo?

Fontes adicionais

Vejo o currículo como um primeiro contato com o profissional, razão pela qual deve ser o mais objetivo e curto quanto possível. No entanto, fontes adicionais incluídas no texto agregam bastante: LinkedIn, blogs, participação em comunidades, etc.

O LinkedIn possuí, por exemplo, o preenchimento de perfil super completo, o que incluí os projetos em que o indivíduo participou, publicações, indicações e muito mais. Com certeza é a melhor fonte adicional que qualquer um pode incluir em seu currículo (em muitos casos, o vejo como a versão “full” do documento).

No caso de redes sociais, raramente Facebook ou Google+ nos agrega algo (não há nem razão para incluir isto no currículo, a não ser que você mantenha uma comunidade lá ou seja ativo nesta). Em raríssimos casos o Twitter nos agrega.

Depois da contratação

Seu currículo não é esquecido, pois pode será usado em sua avaliação durante o período de experiência. Por isto é tão importante ser o mais objetivo e verdadeiro na escrita deste documento. O currículo é uma proposta de trabalho, do que você está oferecendo: suas habilidades e quem você diz ser.

E aqueles que não foram contratados, mas foram avaliados? Tem seus currículos guardados para o próximo processo seletivo. E são chamados para conversar conforme as oportunidades vão surgindo.

E aqueles que enviaram seus currículos após o processo seletivo? Serão avaliados no próximo.

Concluindo

É importante salientar que, ao menos no meu caso, o currículo não é avaliado só por mim: mais pessoas o lêem, até para que possamos bater nossas percepções e chegar a algum acordo antes de chamar o candidato para uma conversa.

Como disse no início deste post, estas são as percepções que tenho ao avaliar um currículo. Creio que mais empregadores sigam caminhos similares aos que descrevi aqui e com certeza há falhas nesta leitura, razão pela qual gostaria muito de saber a opinião de vocês a respeito.

Minhas boas leituras de 2015

Não me lembro de um ano que tenha me ensinado tanto quanto 2015: realizei meu grande sonho de me dedicar totalmente à itexto (aguardem o post). Mais da metade das coisas que discordava até então se mostraram necessárias (virá um post) e minha visão a respeito do mundo foi impactada de maneiras que eu jamais poderia imaginar.

É curioso olhar pra trás e perceber um paradoxo: foi um ano pobre de leituras. Li muito menos, talvez devido ao fato de finalmente ter publicado meu segundo livro (Falando de Grails), o que é sempre bastante exaustivo para mim. Outra razão foi a itexto: este ano nosso foco foi aprender a como gerir o negócio da melhor maneira possível (e a isto agradeço à Nanna, pra variar), o que demandou boa parte do meu tempo.

Conservadorismo, direita, esquerda, centro… o que sou eu?

Em 2015 ficou claro que eu não sabia o que significava ser de direita ou esquerda. Ainda pior: percebi que termos como “conservadorismo” e “reacionarismo” me incomodavam sem que eu soubesse o que de fato significavam. E o mais interessante: o sentimento positivo que sentia pela “esquerda” também não tinha qualquer fundamento teórico. Como eu podia gostar ou desgostar de algo que não conhecia? Quem sou eu de fato?

Roger Scruton e o conceito de faking (falseamento)

Roger Scruton at Edinburgh International Book Festival 2014.  13th August 2014 Picture by Pako Mera/Writer Pictures WORLD RIGHTS (Writer Pictures via AP Images)

Roger Scruton

Alguns amigos (Túlio e Cyrio) me indicaram um autor chamado Roger Scruton, que se apresenta como conservador. Curiosamente, não me foi indicado devido a esta minha busca política, mas por meu interesse em estética.

Scruton nos apresenta um conceito que achei fascinante e se aplica perfeitamente à área de TI e desenvolvimento: “faking”. Grosseiramente o descrevendo, é aquela situação que com certeza leitores mais experientes já presenciaram: alguém se apresenta como profundo conhecedor de um assunto sem saber de sua própria ignorância e os demais ao seu redor – honestamente ignorantes sobre o tema – abraçam o indivíduo como uma fonte real de conhecimento (isto me motivou a escrever este post).

O autor trata de artes plásticas, performáticas e arquitetura, mas conforme ia lendo seus artigos sobre o assunto e participando de alguns eventos da nossa área ficou nítido que seu conceito de “faking” se aplica muito bem à nossa realidade (com certeza virá um post sobre isto).

Você pode ouvir o próprio Scruton falando sobre o assunto neste excelente episódio do programa “Point of View” da BBC: Faking it.

Há também um excelente artigo em inglês: “The Great Swindle”

E também há um livro que ainda não li: Beauty

Scruton conseguiu verbalizar uma intuição que tenho há anos.

Scruton conservador

scruton-conservador

Coincidentemente, no mesmo ano a editora Record publicou uma tradução do livro “How to be a conservative” do Scruton: comprei na hora. Finalmente pude entender o que o conservadorismo realmente significa e, ainda mais importante: identifiquei, chocado, muitos traços conservadores na minha personalidade (será que minha paixão por legados vêm daí?).

Scruton faz uma análise muito profunda do conceito de conservadorismo, mas você deve levar em consideração o fato do livro ser focado no contexto inglês, que é bastante diferente da nossa realidade nacional. Se conseguir levar em consideração este fato e não tomar o livro sem uma boa pitada de sal, com certeza aprenderá bastante com ele.

Finalizada a leitura percebi que tinha uma visão muito preconceituosa a respeito dos conceitos de direita, conservadorismo e reacionarismo. Mais que isto: percebi traços conservadores e mesmo reacionários em mim, o que me leva a assumir isto aqui publicamente sem qualquer vergonha.

Leia o livro antes de me julgar. :)

Bobbio como contraponto

direita-esquerda-bobbioScruton é tendencioso, então para contra-balançar, que tal ler um autor de esquerda falando sobre direita e esquerda? Reli “Direita e Esquerda” do Norberto Bobbio. O autor busca definir os dois termos no seu livro. Não me impactou tanto quanto a leitura de Scruton por não ser um texto novo para mim: comprei o livro em 2003 e nunca o havia lido com atenção.

É uma excelente leitura: no Brasil é publicado pela editora Unesp. Bobbio explica os conceitos do ponto de vista histórico e ideológico em um texto bem curto.

O que percebi? Que tenho familiaridade com alguns ideais de esquerda e direita. Minha busca pela minha própria definição ficou ainda mais confusa. :)

Leituras técnicas

Um ano de blogs

Finalmente coloquei o /dev/All no ar: um agregador de blogs nacionais sobre desenvolvimento de sistemas, TI e assuntos relacionados. O site cresceu significativamente: conta hoje com bem mais de 100 blogs e já estamos caminhando para os 200.

Li posts excelentes no site e (re)descobri alguns blogs que, acredito, vale muito à pena citar aqui:

Dado meu tempo reduzido, /dev/All foi vital para que me manter atualizado durante o ano. Estes foram os blogs que mais gostei e que me lembrei enquanto escrevia este post. Tenho certeza de que fui injusto ao não mencionar mais alguns, mas no futuro corrigirei este erro.

Docker e minha volta ao Linux

docker

Foi a tecnologia que me fez voltar ao Linux com força total e a que mais me impressionou nos últimos anos. De repente me vi com uma ferramenta que me permite realizar experimentos de configuração em servidores com uma produtividade que jamais imaginei ser possível.

Docker me deu a desculpa ideal para que eu pudesse finalmente me aprofundar no Linux. Seguem os textos e livros que mais gostei.

Docker

Docker Jumpstart – Foi o texto no qual realmente aprendi a usar o Docker.

Getting Started with Docker – Versão júnior do texto acima. Leia o Jumpstart primeiro, use este como referência

(em breve deve sair um guia da itexto sobre Docker)

Linux

Foi em 2015 que finalmente resolvi criar vergonha na cara e aprender a escrever shell scripts no Linux. Estes textos foram fundamentais:

The Linux Command Line – Um livro gratuito maravilhoso sobre a linha de comandos do Linux. Finalmente aprendi como dominar esta criatura e já escrevo alguns scripts com ela. Foi muito importante para que eu pudesse tirar um proveito ainda maior do Docker.

Conquering the Command Line – outro livro excelente sobre o mesmo assunto. Não tão bom quanto o primeiro, mas bom também. :)

AWK

Das linguagens de programação que vi em 2015 a que mais me impressionou foi AWK. É um monstro que provávelmente está instalado no seu Linux e você nem nota. Escrevi inclusive um post a seu respeito, que você pode acessar neste link.

Posso dizer com segurança que AWK me tornou uma pessoa mais produtiva em 2015. Interessado em conhecer a criatura?

An AWK Primer – Este livro está no Wikibooks e é um bom início.

GAWK: Effective AWK Programming – Trata-se do manual do projeto GNU para a sua implementação do AWK. A leitura é bem tranquila e também me ajudou bastante.

Git

Em 2015 troquei o Mercurial pelo Git. Inicialmente por que todos os nossos clientes preferiam o Git, depois por que comecei a estudar mais a fundo a ferramenta e aprendi diversas coisas interessantes a seu respeito.

Um dos resultados foi o primerio Guia da itexto: Usando o Git. Já estou trabalhando na segunda edição.

E o que mais gostei de ler sobre Git este ano?

Pro Git – Um livro gratuito escrito por Scott Chacon e Ben Straub que irá lhe expor essencialmente tudo o que você precisa (e não) saber a respeito do Git.

JavaScript

Por mais estranho que eu ache as pessoas amarem hoje uma linguagem que era odiada há poucos anos atrás, não pude deixar de me aprofundar um pouco mais no assunto. O que li e gostei?

JavaScript: the Good parts – Finalmente li este livro do Douglas Crackford. Me impressionou? Não, mas é um livro interessante. Gosto muito dos diagramas que ele usou para descrever a linguagem.

AngularJS – Comecei a usar o AngularJS. Após passar por diversos livros e textos horríveis sobre ele, acabei ficando com a documentação oficial mesmo, que foi a melhor coisa que li a respeito.

Dominando JavaScript com jQuery – escrito por Plínio Balduino e publicado pela Casa do Código. É um dos melhores livros sobre JavaScript que conheço (melhor que o do Crackford na minha opinião). Voltei a este material algumas vezes este ano. Ei: é um livro escrito aqui no Brasil com qualidade internacional! Se ainda não leu e quer entender JavaScript, LEIA!

Nota importante: minhas piores leituras

Minhas piores leituras foram relacionadas a JavaScript. Li muito material HORRÍVEL este ano, especialmente o relacionado a NodeJS e AngularJS. Se um dia escrever um texto sobre minhas piores leituras com certeza haverá uma longa seção sobre este conteúdo.

BASIC

BASIC

Sim, você leu certo: este ano estudei BASIC. Não para usar a linguagem, mas para escrever melhores textos técnicos (e outra razão que exporei abaixo). Por que melhores textos técnicos? Leia minhas sugestões de leitura e você entenderá. ;)

DartMouth Basic Manual – Publicado em 1964. É um dos textos introdutórios sobre programação mais didáticos que já vi. Repare que é uma fotocópia, e com marcações sobre a mesma! Pura simpatia.

Linguagem BASIC – MSX – Pouca gente se lembra do MSX: sou uma delas. E este foi o primeiro livro de programação da minha vida, quando eu tinha algo entre 6 e 7 anos.

10 PRINT CHR$(205.5+RND(1)); : GOTO 10 – E que tal um livro sobre um algoritmo escrito em BASIC que imprime um labirinto? Leitura divertidíssima para aqueles que, como eu, curtem história da computação. Excelente leitura!

O BASIC nos anos 80 era usado como ferramenta educacional para crianças (fui uma destas). Sabe este esforço recente de popularização da programação? O pessoal já fazia isto 30 ou 40 anos atrás (na minha opinião com muito mais competência e, talvez, honestidade).

Houve um curto período de tempo em 2015 no qual iniciei a implementação do meu próprio BASIC para a JVM, mas as motivações para este projeto e o que ocorreu são assunto para um outro post (esta era a segunda razão).

(que se dane o Dijkstra: eu curto BASIC!)

O que lerei em 2016?

Desejo a todos vocês um 2016 como foi meu 2015: rico em aprendizado e experiências que com certeza me tornaram uma pessoa melhor (assim espero!).

Gostaria muito de saber aqui quais foram as melhores leituras de vocês. O que mais gostaram de ler? Feliz ano novo!

Como aproveitar ao máximo um palestrante

Então você está assistindo a uma apresentação em um evento ou um consultor está na sua empresa mostrando algo que pode tornar sua vida melhor. Terminada a palestra, em uma conversa entre colegas você critica o conteúdo ministrado e obtém como resposta algo como o clássico “quem é você para criticar fulano?”.

Ou então algo ainda mais interessante: a apresentação lhe deu um novo ânimo pois agora sabe que seus problemas acabaram! Você quer aplicar aquele conteúdo em sua vida e no dia seguinte começa a luta. Tudo nos primeiros momentos vai maravilhosamente bem, mas logo você nota que as rosas que lhe venderam possuem mais espinhos do que lhe contaram.

Sou consultor e de vez em quando palestro em eventos ou empresas. Como consultor estou cansado de ver pessoas tendo prejuízos monstruosos devido a algo que foi mal compreendido ou dito em uma apresentação. Como palestrante sempre temo que o que digo gere muito prejuízo a quem me ouviu falar (e creio que todos os palestrantes deveriam ter esta preocupação).

Neste post lhe darei algumas dicas para não cair nestas armadilhas. Como tirar máximo proveito do palestrante, aquela pessoa que aparenta ser tão mais carismática que nós?

Termos fundamentais

Este post gira em torno de dois conceitos que considero fundamentais quando vou avaliar qualquer palestra.

Responsabilidade e irresponsabilidade

amigo-da-onca

Simples e direto: responsável é aquele que será procurado após suas ações serem executadas, tendo estas sido bem sucedidas ou não. Já o irresponsável executa suas tarefas e parte.

Na esmagadora maioria das vezes o palestrante expõe o tópico e sai. Ele irá embora, mas a impressão permanece nos ouvintes. O expectador é o maior responsável pelo que faz com o conhecimento transmitido.

Arrogância

miniature-pinscher

No livro “Direita e Esquerda”, Norberto Bobbio dá a melhor definição do conceito que conheço: é “a confiança excessiva nas próprias habilidades”.

Eu e você já fomos arrogantes ao menos uma vez. Um esforço honesto de memória nos exporá situações nas quais realmente acreditávamos conhecer um assunto e transparecemos isto a alguém, para depois descobrirmos que não eramos tão bons assim naquilo.

Quem está falando?

who_is_talkingA pessoa é mais que um nome, e a pesquisa a respeito do passado do palestrante é um excelente detector de arrogância. Tudo bem que existem exceções, mas como levar a sério alguém que se apresenta para falar de um assunto, por exemplo, desenvolvimento de software e se apresenta assim?

Fulano Simpático é profundo conhecedor do assunto X e possuí três anos de experiência como desenvolvedor

Você busca o currículo da pessoa e descobre que destes três anos, um foi como estagiário, dois em apenas uma empresa e que o assunto X tem pelo menos 15 anos de existência. Se a apresentação for algo como a exposição da sua experiência, talvez seja interessantíssimo: é fascinante ver as dificuldades enfrentadas por iniciantes, mas se for uma aula detalhada sobre o assunto… desconfie: a genialidade infelizmente não é um artigo popular no Universo.

Havendo tempo, uma busca rápida pelo LinkedIn, blog, artigos publicados ou coisa similar já expõe bem a natureza do palestrante. Este é o primeiro passo: detecte a possível arrogância do sujeito. (redes sociais como Facebook não contam: é lugar de se postar trolagem (o meu pelo menos é)).

Experiência não é tudo: o mínimo de consistência também é importante. Se um dia a pessoa fala sobre X, em outro sobre Y, depois sobre Z, A, D, H, E, J  e os assuntos são distantes uns do outros, vejo algumas opções:

  • Estou diante de um especialista em porra nenhuma
  • É alguém que curte novidades e divulgá-las (e isto é positivo, desde que não se venda como profundo conhecedor dos assuntos tratados)
  • Dificilmente a pessoa teve tempo para trabalhar efetivamente com os assuntos tratados na prática

Mas conhecer melhor o passado do palestrante te traz outra vantagem: te ajuda a fazer melhores perguntas. Entenda: ninguém conhece a totalidade de um assunto, pois todo conhecimento é definido pelo contexto em que o sujeito se encontra. Se você me perguntar como se deve aplicar Groovy e Grails no processamento de Urânio não vou saber te responder.

E sabe qual a vantagem de boas perguntas? Elas te dão um monte de conteúdo. 

E o lado feio?

duascaras

Você vê a solução e ela parece linda. Mas não tem nenhum porém, nenhum lado feio, nenhuma limitação??? Na minha opinião esta é a pergunta mais importante: quanto custa?

Nos últimos anos a ausência desta pergunta gerou prejuízos imensos que pude ver em primeira mão. Seguem dois exemplos:

  • Equipes que abandonaram completamente o modelo relacional e abraçaram alguma solução NoSQL, como MongoDB, para depois perceberem que coisas “bobas” como integridade referencial não são algo “careta e ultrapassado”.
  • Empresas que realmente acreditaram que seria possível reduzir a complexidade dos seus sistemas adotando micro-serviços que se pegam em uma situação BEM pior que a anterior por que não se falou muito a respeito dos custos envolvidos.

Quando o palestrante não fala muito a respeito dos trade-offs, isto não quer dizer que a pessoa é má intencionada: está apenas apresentando seu aspecto irresponsável e talvez arrogante. Terminada a apresentação, a bola está com você.

Normalmente a pessoa está tão enamorada pelo assunto apresentado que não consegue ver suas limitações: qualquer um que já tenha se apaixonado sabe do que estou falando.

(dica: se o palestrante tem um slide mostrando os custos da tecnologia e o expõe rapidamente, peça para que fale mais a respeito do assunto ;) )

Desconfie do carisma/”atitude”

poison

Já reparou que na natureza as coisas muito coloridas (como a flor acima) normalmente são armadilhas? Numa palestra o que realmente interessa é o conteúdo, mas há aqueles palestrantes que são simplesmente excessivamente carismáticos.

São pessoas divertidas, simpáticas, engraçadas, bem articuladas. Ou então podem possuir aquela postura mais radical, quase agressiva. Aquele sujeito “adoravelmente desagradável” que conquista a sua simpatia. É difícil vencer esta tentação. Todo mundo quer ser como aquela pessoa, e se ela diz algo, deve ser o correto, certo? Certo?

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Minha dica? Dou tempo ao tempo. Tento resistir ao carisma e prestar atenção no conteúdo. Espero passar um mês e tento me lembrar do conteúdo. O que mais me impressionou? O palestrante ou o conteúdo?

(nos meus 36 anos fica claro para mim que a maior parte das pessoas que me influenciaram eram na realidade tolos carismáticos (e esta descoberta não foi decepcionante, mas sim um alívio))

Pergunte (não precisa ser na hora)

Eu sei que fazer uma pergunta em público pode dar uma vergonha danada. Talvez você fique com medo de dizer alguma bobagem na frente de todos e isto muitas vezes te cala. Mas quem disse que a pergunta precisa ser feita durante a palestra?

Todo palestrante expõe seus dados de contato. Se acha que não é interessante perguntar naquele momento, faça como eu: anote todas as suas dúvidas e em seguida lhe envie um e-mail. Nunca encontrei alguém que não me respondesse, por mais importante que fosse.

Estude antes da apresentação

Quando vou a uma palestra que realmente me interessa costumo estudar um pouco sobre o assunto antes do evento. Isto me ajuda bastante a fazer melhores perguntas e na compreensão do que vai ser exposto.

Não precisa ser um estudo profundo: muitas vezes uma leitura de 20 minutos antes do evento já é suficiente pra te contextualizar.

Peça pelas fontes

Dificilmente todo o conteúdo apresentado foi criado pelo palestrante. Pra tirar máximo proveito do que foi exposto sempre peça as fontes usadas na apresentação. Muitas vezes o que mais aproveito em uma palestra é justamente a bibliografia!

É uma oportunidade excelente de entrar em contato com textos que dificilmente você ouviria a respeito se não tivesse participado do evento. Se o autor não expor suas fontes, apenas pergunte por alguma sugestão de leitura.

Lembre que a bibliografia nem sempre é explícita, mas sempre está presente. Basta prestar atenção nos nomes citados durante a palestra.

Existe mais de uma realidade

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Conhecer o passado do palestrante traz outra vantagem: você passa a entender sua realidade, que sempre é distinta da sua, e este é um ponto importantíssimo.

Muitas vezes o palestrante é criticado por que o ouvinte não consegue por em prática aquilo que foi exposto. Uma razão comum (quando bobagens não foram ditas) é o fato de estarem em realidades diferentes. Exemplo clássico: alguém que trabalhe em uma empresa gigantesca falando sobre sua infraestrutura de servidores. É uma realidade restrita, dado que a esmagadora maioria dos ouvintes comemora e muito se tiver mais de um (mesmo com a cloud).

Então para tirar máximo proveito do que foi exposto é fundamental a contextualização. O que está sendo apresentado funciona (ou não) dentro do contexto do palestrante. É sua responsabilidade portanto, se quiser aplicar o que viu, adaptar (se possível) o que foi exposto para a sua realidade.

Seja crítico e valorize suas próprias experiências

Não é raro estar em uma palestra e presenciar o palestrante desdenhar um conjunto de conhecimentos que fazem parte do seu dia a dia. Neste momento você deve se fazer o seguinte questionamento: se é tão ruim assim, por que têm funcionado para nós?

Esta é uma pergunta importantíssima. Já cansei de ver o clássico momento “Java sucks, use X que é melhor”. Se não for apresentada uma excelente justificativa para a troca, pulo fora na hora.

Não estou dizendo para você ser um reacionário: apenas para não desvalorizar os conhecimentos que já tem. Não é o fato do outro estar com o microfone na mão que o torna o dono da verdade.

Concluindo

Palestras e eventos são uma fonte praticamente infinita de riqueza intelectual quando bem aproveitados e de prejuízos imensuráveis se o ouvinte não adotar uma postura ativa, questionadora e crítica.

Ter uma postura crítica diante de uma apresentação não deve ser visto como uma postura negativa, mas sim como a tentativa de se extrair o máximo possível de eventos cuja finalidade é nos formar.

Choque de cargos: o que eu e você somos?

Apesar da minha vida acadêmica ser bastante conturbada, sempre soube o que queria ser: programador. E a imagem que tinha desta profissão é muito próxima da imagem abaixo, usada em tantos memes:

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Era uma visão bastante ingênua por razões óbvias (eu tinha menos de 10 anos), mas confesso que ainda a tenho ao menos em parte. Computação é minha musa e bandeira que defendo até as últimas consequências.

Curiosamente não fui direto para o mercado de TI: fui trabalhar em livrarias, depois para a faculdade de Filosofia e os programas que escrevia eram (e ainda são em grande parte) criados por puro prazer. Anos depois finalmente larguei a Filosofia (e livrarias) e entrei no mercado: foi um choque.

O choque dos cargos

De repente vi as pessoas atuando como programadores mas se chamando de “desenvolvedores”, “arquitetos”, “fullstack developer” (este último, mais recente) e raríssimas vezes como programadores. Aliás, eu via outro nome curioso: implementador. Aonde estavam os programadores?

Me perguntava: era ruim ser programador? Era inferior? Conheci arquitetos fantásticos: aqueles caras projetavam soluções completas e, logo em seguida, davam massa às suas idéias escrevendo seu código. E então ouvia que programadores de torre de marfim era algo negativo e toda aquela história que vários de vocês já devem ter ouvido.

Conforme o tempo ia passando mais choques apareciam: pra começar não bastava ser um programador, você era um developer e um developer X, aonde X correspondia ao nome de uma tecnologia como Java, PHP, C, Delphi, .net ou qualquer outra.

O que eu era? Quando entrei no mercado já “dominava” algumas linguagens: C, Pascal, Delphi, Visual Basic, Java, PHP, Javascript, VBScript… E em todas estas conhecia gente que criava coisas fantásticas. Que tipo de “gênio” eu queria (e poderia) ser? Queria todos.

Indo além, via também as diferentes atividades: havia o sujeito que projetava o sistema (e depois o implementava), aquele que testava, outro que programava, o sujeito que coletava requisitos, tinha também “o figura” que gerenciava e aquele outro que coordenava. Tantas atividades, que na teoria aparentavam ser tão distintas, mas que na prática deveriam interagir entre si mas acabavam ignorando-se umas às outras.

Eu via, por exemplo, o analista de requisitos que não conseguia entender como o programador pensava, o arquiteto “Niemeyer”, que projetava coisas quase impossíveis para os programadores “engenheiros” construírem, o programador que não entendia como o sujeito do teste pensava e acabavam pipocando conflitos, aquele gerente que buscava um Santo Graal da produtividade…

Ainda pior: cada programador focado em uma única tecnologia pensando de forma completamente diferente e, para meu horror, ignorando as soluções presentes em outras plataformas por pura e simples futilidade, vaidade ou ignorância. Programador que não entende programador???

Ficava óbvio pra mim que por mais que se tentasse a especialização, o especialista não podia ser um solipsista. A pessoa do QA precisa entender como pensam o programador, cliente, arquiteto, analista de requisitos, etc. E o mesmo para todas as outras áreas de atuação.

E aí virei “empresário”

A visão que tinha até então era a do funcionário e neste ano comecei a ver “o outro lado”: eu, como empregador, como vejo estes cargos? itexto é uma empresa de computação: não me interessa se vou lidar com C, Lisp, Java, C#, Delphi ou Clipper. A fundei para criar um estilo de vida profissional a ser compartilhado.

Meu objetivo é ajudar os profissionais de computação a se tornarem melhores  e as empresas a tirar melhor proveito dos seus recursos e necessidades computacionais com nossa consultoria. Aonde entra o especialista estrito? Neste momento apenas se for para nos ensinar sua especialidade.

O especialista é caro (especialmente quando sua empresa é pequena). E estou usando o sentido estrito do termo: o que ele me dará é pouco comparado ao que iremos investir. Ainda pior: há aqueles que criam barreiras a qualquer solução que sua especialidade não abrace e acaba por nos limitar intelectualmente. Não basta ter um retorno mínimo: muitas vezes causa dano.

Claro: alguma especialidade é necessária. A minha é software, não administração: resolvemos com a Maria Angélica, que nos liberou para poder fazer aquilo que sei. Mas o especialista não poderia dizer o mesmo, digo, que faz apenas X dentro do processo de software por ser apenas “aquilo que sabe fazer bem”?

Respondo: você pode até fazer apenas aquilo, mas obrigatoriamente deve conhecer as outras áreas para se tornar realmente útil a nós. Um sujeito .net que apenas critique Java (e vice-versa) e não reconhece as suas vantagens é nocivo. Um testador que chama de “preguiçoso” o programador por que este “se esqueceu” de executar um teste o vejo como um tóxico (negativo). Um gerente de projetos que joga prazos absurdos por acreditar que a equipe está “enrolando” não passa pela minha porta. O arquiteto que projeta algo ignorando as capacidades da sua equipe e do seu cliente para nós fede.

Software é uma atividade interdisciplinar em sua essência, negar este fato é dar tiro no pé. Mais que interdisciplinar, geramos produtos baseados não em uma tecnologia, mas várias, cada qual nos oferecendo um ou mais caminhos para resolver os problemas que nossos clientes enfrentam. Fordismo quando o assunto é software não rola.

Esta nova realidade abriu muito meus olhos: é impressionante a dificuldade que temos em contratar. É tanta gente se rotulando e com isto reduzindo suas possibilidades de mercado que me assusta, cargos como “CTO”, por exemplo, que soam tão imponentes mas na prática acabam se mostrando inúteis, o cara “fullstack” que só conhece uma linguagem de programação (JavaScript), gente que sonha em ser “chefe” e se torna de cara “gerente de projeto” sem nunca ter visto um sistema ser criado, arquiteto que nunca programou e está buscando o primeiro projeto… Quanta gente “cara”!

Cegos guiando (ou gerando) cegos?

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Será que estas pessoas sabem o que de fato estes rótulos significam, se é que significam alguma coisa? Confesso que sempre tive dificuldade em saber o que de fato EU sou.  Programador? Arquiteto? Empresário? Consultor? Talvez “programador” me soe melhor aos ouvidos, mas sei que não é uma boa definição para meu caso. Prefiro “profissional de computação”.

Recentemente estive em um evento no qual o palestrante levantou o seguinte questionamento: “existe programador velho? Alguém se aposenta como tal?” (ele não respondeu, mas sua postura claramente respondia que “não”).

Achei curiosa a definição de velho (mais de 30 (sou um ancião portanto)), ainda mais interessante a ideia de programador (não havia). Aquilo me incomodou (muito): pessoas em início da carreira na platéia, vendo um cego que acreditava enxergar usando termos como developer, fullstack developer, architect e tantos outros em inglês.

Um cego guiando outros (pior: gerando cegueira), provavelmente formado por outro (cego (talvez sua cegueira se chame arrogância)). Senti duas coisas naquele dia: alegria por estar na itexto e a obrigação moral de questionar estas coisas.

O que é legado?

Santo Agostinho, que de santo mesmo tinha muito pouco.

Dica: você sempre encontrará frases divertidas em Santo Agostinho

De uns tempos para cá tenho notado que cada vez mais pessoas falando sobre “software legado”. E sabem o que acho mais interessante? Elas caem em uma situação parecida com a que Santo Agostinho enfrentou ao falar sobre o tempo.

“Que é, pois o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pede, não sei.” – Santo Agostinho

Troque a palavra “tempo” por “sistema/software legado” e faça uma auto crítica. Se eu te perguntar o que é software legado você vai saber me responder de forma clara e imediata? Já falei aqui como lido com legado, mas nunca apontei uma definição para este. Neste post faço isto,  mas antes vou mostrar algumas definições faláciosas.

“Todo software que você escreve depois de um tempo vira legado, assim como todo aquele que não foi escrito por você.”

Esta definição é um contra-senso e dá pra provar com lógica pura, quer ver? Se digo que um software é legado, a palavra “legado” denota uma categoria (ou conjunto) no qual alguns softwares se encaixem e outros não. Legado é adjetivo. Se é adjetivo, diferencia, se diferencia, deve haver algo que não seja legado.

Se tudo é legado, não há diferenciação, portanto não há legado. O software que você está escrevendo não é legado pois ainda não foi para produção e para o cliente sequer existe de fato, então cairia fora desta definição, mas aí entra aquela outra que também é furada.

“Se foi para a produção virou legado!”

Também não se aplica, a primeira versão do seu sistema, a qual você possui completo controle sobre o código fonte e arquitetura, que está brilhando de lindo pode ser chamado de legado? Sabemos que não. É apenas uma variação da primeira definição que mostrei.

“Legado é todo aquele software que precisa ser substituído por ser obsoleto ou não servir mais!”

Também não. Este software não é legado, mas sim inadequado ao contexto em que se encontra. Entra aí o conceito de obsoleto. Em que sentido obsoleto? Regras de negócio que não se aplicam mais? Uma plataforma de desenvolvimento que NINGUÉM no MULTIVERSO conheça?

A história do ambiente de desenvolvimento críptico também é furada. Ok, você pode ter dificuldade em encontrar mão de obra especializada, mas nada além do custo (que nem sempre é tão exorbitante assim quanto nos vendem) impede que você treine ou aprenda aquele ambiente também antes né? (sempre me soa a preguiça)

“Código legado é código sem testes.” – Michael C. Feathers

Sim, eu li o livro

Sim, eu li o livro

Desconfio que esta falação toda em cima de código legado é motivada pelo livro do Michael C. Feathers que o Robert Martin tem divulgado bastante atualmente. Neste livro há uma definição bem interessante: “código legado é código sem testes”.

Em uma primeira análise é uma boa definição: se o código não tem testes você não sabe explícitamente o que ele faz, logo não há controle sobre ele. Você não sabe se vai quebrá-lo quando for implementar uma nova funcionalidade ou mudança.

O problema desta definição é o escopo: apenas o programador (e talvez o arquiteto). Para o programador código legado é aquele que considera ruim o que, normalmente não passa de uma questão de ego (Fabio Akita tem um texto excelente sobre isto) e ignorância a respeito do contexto que gerou aquele sistema. É simplesmente não ter uma resposta honesta para a pergunta “o sistema deveria ser deste modo por que eu quero ou por que realmente é uma necessidade?”.

(Sobre o livro, bom: me decepcionou pois é mais um livro de refactoring do que sobre arquitetura na minha opinião. Um dia ainda escrevo um review sobre ele. Resumindo: micro demais e macro de menos, mas mesmo assim recomendo a leitura.)

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Então você é o legado?

O que é um sistema legado?

Sistema legado é aquele cujo controle foi perdido por seus principais stakeholders. – Definição Lobo Weissmanniana

Software legado tem valor e prova disto está no fato de ser usado. Ignorar isto é menosprezar seu cliente e divulgar aos sete ventos sua própria arrogância e cegueira.

Software legado é aquele cujo controle sobre sua evolução foi perdido pelos principais interessados. E ei: o principal interessado não é o programador ou a equipe de desenvolvimento, mas quem o financiou e os usuários finais. Minha diferença em relação a Feathers é o foco: o dele é a equipe de desenvolvimento, o meu o usuário final.

Testes são importantes? Não, são vitais pois garantem a malha de segurança para a equipe de desenvolvimento e tudo o mais que todos nós, desenvolvedores, já estamos cançados de saber. No entanto para quem financia são na prática apenas um dialeto desconhecido. No que diz respeito à proximidade dos testes com o cliente final o mais próximo que iremos ter é o BDD mas, convenhamos, o usuário executivo não se interessa tanto assim por eles quanto se interessa pelo sistema final NO MUNDO REAL.

Quão “antiga” é a plataforma de desenvolvimento também não fazem um sistema legado. Prova disto é a imensidão de sistemas feitos em Ruby on Rails, Grails, Spring, .net e outros feitos às pressas como “MVP” que deixam seus patrocinadores desesperados com uma quantidade imensa de bugs a serem resolvidos e evoluções caríssimas. Em contrapartida, temos um verdadeiro universo de sistemas feitos em COBOL, FORTRAN, DELPHI e VB cujas instituições financeiras possuem completo controle sobre si e não podem ser considerados como legado. A diferença entre um e outro? Controle.

Quando evoluo um sistema legado o objetivo final é simples: devolver o controle a quem interessa. Mas como se perde este controle? De imediato as seguintes causas me vêem à mente:

  • Perda de contato com a equipe responsável pelo desenvolvimento do sistema.
  • Complexidade ingerenciada: você mantém a equipe mas esta perdeu o controle sobre a complexidade do sistema devido a problemas arquiteturais.
  • Perda do próprio conhecimento do sistema decorrente de ausência de documentação ou alta rotatividade dos stakeholders envolvidos na confecção original.
  • Aparente perda de controle: sinistro mas já vi acontecer. Ocorre quando alguém diz que o sistema é ruim apenas para justificar sua reescrita sem apresentar fatos concretos. (muito comum, especialmente quando você está buscando consultorias no mercado para evoluir seu legado)
  • Perda do código fonte.
  • Ou qualquer outra ausência do elo que ligava você à idéia original que gerou aquele sistema.

Entenda: simplesmente refatorar uma base de código não restaura o controle ao stakeholder pois ele nos paga essencialmente para não ter de se preocupar com isto. Para o investidor ter novas funcionalidades ou evoluções e adaptações implementadas em um prazo e custo aceitável, em um todo que seja compreensível, isto sim é ter controle sobre um sistema. ISTO é evoluir um legado, ou melhor, atualizar um sistema.

(Sabe aquele sistema que “não serve mais” ou é “obsoleto”? Quando é verdade, você tem controle sobre ele, pois sabe que não mais se aplica. Por isto não considero legado. Nestas situações há consciência de que deve haver um descarte. O máximo de descontrole que pode haver neste caso são pessoas que ainda o usam.)

Concluindo

É sempre a questão de uma boa definição. Claro que outras definições existem e podem até ser melhor que a minha, no entanto o que observo é que raríssimas vezes vejo a palavra chave fundamental, controle, ser aplicada. Se você domina um sistema, não há problema, você sabe como ele pode e deve evoluir. De resto, é o mito do legado como bem descrito no blog do Fabio Akita que citei acima.

PS: uma definição alternativa poderia ser “o que separa o desenvolvedor infantil do aduto”, mas achei que poderia soar um pouco agressiva.

Nota – 7/5/2016

Hoje vejo que minha definição de legado na realidade não o define, mas sim o problema principal que envolve o conceito.

E também vejo que o termo legado sequer deveria ser usado. Explico as razões neste post.