Category Archives: Assédio moral

Assédio moral em fábricas de software: culpando a vítima

Fábrica: uma metáfora bastante infeliz

Quando resolvi investir meu tempo estudando o fenômeno do assédio moral em fábricas de software resolvi buscar ajuda de diversas pessoas que considero formadoras de opinião. Meu pedido era simples que me ajudassem na divulgação da pesquisa para que o número de relatos fosse maior. Isto me propiciaria dados estatísticos que seriam muito importantes para traçar o perfil tanto do assediado quanto do assediador neste ambiente.

Infelizmente a maior parte das pessoas que procurei não pode ou simplesmente não quis me ajudar, mas uma das respostas que obtive  foi tão brutal que só hoje, meses depois, é que consigo escrever a respeito. Bom: a resposta foi basicamente a que transcrevo a seguir:

Sinceramente não entendo como alguém pode trabalhar em um lugar destes (fábrica de software) e muito menos se sujeitar a este tipo de coisa: sinto muito, este tipo de pessoa tem mais que se ferrar, então não contribuirei com o seu trabalho. Passar bem.

A dor da decepção só não foi maior porque tirei proveito da situação para pensar profundamente sobre o assunto.  A resposta apesar de tosca carrega em si uma profundidade abismal que só tocarei brevemente (ainda há muito que quero escrever sobre isto, incluindo minha experiência pessoal).

Como alguém pode trabalhar “neste tipo de lugar”?

Simples: por que muitas vezes é o que você consegue e, além disto, pode parecer chocante o que direi, mas há muitas fábricas de software aonde eu gostaria de trabalhar. Maniqueismo é visão de gente limitada: há inúmeros tons de cinza entre os extremos e acredite, sempre você consegue tirar algo bom da experiência. Um dos empregos mais bacanas que tive foi em uma fábrica de software inclusive, aonde conheci pessoas maravilhosas e com as quais mantenho contato até hoje.

É questão de por os pés no chão e em seguida perceber e aceitar a diversidade. Baixar o nariz e fazer o que quase toda religião nos diz: anular o ego e adquirir humildade. Simples assim, resposta data.

Como alguém se sujeita ao assédio moral?

Em um post anterior apontei as principais características do fenômeno assédio moral. São três:

  • Degradação do ambiente de trabalho de forma intencional.
  • Repetição sistemática do ato de forma continuada por determinado período de tempo.
  • Direcionado a um grupo ou pessoa.

A razão pela qual a pessoa “se sujeita” é consequência do segundo e terceiro ponto. O assediador costuma agredir sua vítima sistematicamente de forma bastante comum usando pequenos ataques. São atitudes que soam simples e inofensivas quando vistas isoladamente, mas que após o acúmulo com o tempo simplesmente destroem a auto estima do assediado, que começa a realmente acreditar que o problema é com ele. Lembra muito uma tortura chinesa: pequenas gotas que te destroem.

O fato de ser direcionado garante a discriminação do assediado: este é isolado dos demais. Este isolamento se apresenta de duas formas: a mais óbvia é no corte do convívio social com os colegas que o evitam para que não sofram consequências (muito comum). A segunda é por parte da própria vítima que, por estar com a auto estima destruída se sente constrangida e indigna do convívio com os demais.

No texto “final” da pesquisa há um trecho em que digo só ter conseguido 19 depoimentos. Um advogado a quem temo muita estima (o Dr. Raphael Moraes de Carvalho Pinto) ao ler este pedaço me repreendeu imediatamente. Não são “só” 19, na realidade consegui DIVERSOS depoimentos. As vítimas simplesmente não conseguem falar a respeito por sentirem vergonha (um comportamento muito similar ao experimentado por vítimas de violência doméstica e sexual). E digo por experiência própria: só hoje começo a conseguir falar sobre  minha própria experiência (a pesquisa foi minha terapia).

A violência do assédio moral é imensa, silenciosa e covarde. A vítima perde totalmente a capacidade de se defender ou de falar a respeito por acreditar ser a fonte do problema. Apenas um dado estatístico: Heinz Lehmann estimou que 15% dos suicídios na Suécia eram diretamente relacionados ao assédio moral. A coisa MATA.

Concluindo

Quando vemos alguém sofrendo uma injustiça é muito comum recriminar a vítima por não reagir. Postura esta que, na minha opinião, simplesmente alimenta a ocorrência do fenômeno do assédio moral. Sim, se você diz por aí este tipo de coisa e pensa assim mesmo após este texto, saiba que você contribui diretamente para que este tipo de monstruosidade ocorra.

A vítima se sujeita por que posturas recriminatórias como a que mencionei alimentam a vergonha e aniquilam (sim, aniquilam) a auto estima do assediado.

A Curiosa História da “Fábrica de Software”

Enquanto escrevia meu trabalho de conclusão de curso sobre assédio moral em fábricas de software fiz algumas descobertas que mudaram profundamente minha visão a respeito do nosso mercado. Dentre estas descobertas está a curiosa história que vou relatar neste post do termo “fábrica de software”.

Eu precisava de relatos de assédio moral (bullying) ocorridos fora do Brasil e simplesmente não os encontrava. Ainda mais interessante, ao buscar a tradução literal do termo, “software factories” encontrava uma série de softwares a venda. Ora, software não gera assédio. Meu segundo passo foi buscar uma tradução para o termo e, para minha surpresa, também não encontrava algo que pudesse me satisfazer.

Questionei diversas pessoas em busca de uma tradução para o termo e, ainda mais curioso, ninguém me dava uma tradução que não fosse a literal. A minha antiga percepção de que nosso grande problema em desenvolvimento de software é linguístico se mostrava cada vez mais forte. Uma mera percepção não era suficiente: eu precisava de fatos. E eis que começa minha pesquisa. Segue a história.

Japão: a Hitachi em 1969

Em 1969 enquanto o mundo se maravilhava com o homem chegando à Lua a Hitachi japonesa cunhava o termo “software factory” com extremo sucesso na sua divisão “Software Works”. É interessante que o termo “fábrica” (factory) neste momento já é considerado polêmico. O objetivo da Hitachi era maximizar sua produtividade e qualidade através do reuso de componentes de software tirando máximo proveito da sua escassa mão de obra.

Toda peça de software escrita pela Hitachi a partir deste momento só é gerada se pode ser reaproveitada em mais de um contexto. “Fábrica” aqui diz muito mais a respeito do modo como estes componentes são combinados de forma a atender as necessidades dos clientes do que com linha de montagem. Aliás, não há linha de montagem como nas brasileiras, que se materializam sob a forma do modelo em cascata.

A inspiração por trás da fábrica de software japonesa é a produção de chips, área na qual a Hitachi já possuí alguma experiência. Quando um circuito integrado é projetado, normalmente são usadas estruturas chamadas ASICs (Application Specific Integration Curcuit), que são como componentes eletrônicos na forma de circuitos integrados. Estes possuem funções muito bem definidas, como por exemplo processar determinado tipo de sinal. A idéia básica era: se conseguimos criar circuitos integrados desta forma, por que não aplicar o mesmo princípio à produção de software?

Surgem na Hitachi iniciativas como a criação de workbenches para documentar e construir componentes. Sabe o que estes workbenches influenciaram na criação? A IDE que você usa ao programar. Surgem também novas práticas de componentização, melhorias na documentação e diversas outras técnicas que de uma forma ou outra acabaram por entrar em nosso dia a dia.

E o sucesso da Hitachi é absoluto: 90% de reuso. Mas como isto é possível? A partir de um esforço gigantesco voltado à componentização e foco nos nichos em que a empresa atuava: componentes eletrônicos/elétricos. Todo o desenvolvimento é voltado para um nicho específico: o da empresa. Leia este artigo de 1987 publicado pelo MIT sobre o assunto:”Hitachi: pioneering the “Factory” Strategy and Structure for Large Scale Software Development“. Nota: repare no termo que é incluido entre áspas.

1986: Europa e sua iniciativa Eureka

Em 1986 iniciou-se um projeto europeu chamado “Eureka Software Factory”, também conhecida como “fábrica de software genérica”. O objetivo era obter o mesmo sucesso dos nossos amigos japoneses incentivando a construção de componentes reutilizáveis de software.

Foi uma iniciativa que tinha como visão um mercado europeu composto por uma série de produtores de componentes que seriam vendidos para as empresas, que por sua vez teríam apenas a função de integrá-los a fim de satisfazer suas necessidades. Teríamos empresas especializadas, por exemplo, na construção de componentes responsáveis por geração de notas fiscais eletrônicas, validação de dados, e por aí vai.

O projeto durou aproximadamente 10 anos e em seu desenvolvimento criou-se uma série de protocolos e interfaces padronizadas que permitissem aos consumidores adquirir componentes compatíveis que pudessem fácilmente ser integrados em um sistema maior. Você provávelmente não encontrará muito material sobre a iniciativa Eureka pois esta “falhou” miserávelmente. Ao negar o foco em um nicho específico a construção de componentes se torna muito vaga: consequentemente os desenvolvedores europeus não compraram a idéia.

O fracasso não quer dizer que a Eureka tenha sido em vão, muito pelo contrário. Diversas abordagens que vemos hoje como por exemplo SOA têm suas raízes (mesmo que muito indiretamente)  nos padrões arquiteturais desenvolvidos pelo projeto. O melhor texto que encontrei sobre a iniciativa Eureka é também a melhor descrição da história da iniciativa das fábricas de software. Trata-se do texto “The Software Factory: Contributions and Illusions”, cujo capítulo 17, que trata da iniciativa Eureka e também da fábrica japonesa pode ser acessado neste link.

Década de 1990: Estados Unidos e CMM

O Departamento de Defesa dos EUA tinha prejuízos gigantescos com seus fornecedores de software, e com isto cria a iniciativa CMM (Capability Maturity Model) que dará origem ao nosso conhecido CMMI. O objetivo era padronizar os processos dos seus fornecedores a fim de minimizar a possibilidade de enfrentarem prejuízos nestes contratos. Básicamente a primeira forma do CMM era um formulário usado pelo contratante na análise do fornecedor a fim de, entre outras coisas, verificar se este era compatível com suas necessidades.

Repare que interessante: o CMM surge graças a uma necessidade do cliente, não do fornecedor. Ao contrário das iniciativas européia e japonesa, o foco não está mais nas ferramentas usadas, mas sim no processo desenvolvido. O componente adquire uma natureza menos técnica e mais epistemológica: vêmos claramente o foco na gestão do conhecimento. Conhecimento é sempre compatível. É a palavra tecnologia levada ao seu literal, ou seja, como conhecimento (logos) a respeito da técnica (technos).

A idéia básica é a de que com um processo que vise sempre o seu próprio aprimoramento você consiga mais fácilmente repetir a execução de projetos e com isto entregar com maior qualidade e dentro do prazo o software que seu cliente precisa. A fábrica de software brasileira é profundamente influenciada pelo modelo CMMI (basta ver o MPS.br).

Ainda aqui vêmos o foco em nichos específicos de mercado. Os fornecedores normalmente possuem expertise em uma área de conhecimento que os possibilita construir softwares para uma área específica. Apesar de lindo na aparência, o CMMI é alvo de diversas críticas atualmente, dentre as quais o fato de que possuir um belo processo não implica em ganho de qualidade necessáriamente, e também o fato de muitos se certificarem apenas para conseguir clientes, e não para obter qualidade. Uma crítica muito bem fundada a este modelo pode ser lida neste link.

E no Brasil?

No Brasil fábricas de software desenvolvem para qualquer nicho. Aliás, desenvolvem para um nicho específico: se chama mercado ( :) ) ao contrário do que ocorre nos três modelos que apontei acima. O termo fábrica é levado em seu sentido fordista literal, ou seja, como uma linha de montagem que se inicia nos requisitos e termina no teste sob a forma do modelo em cascata. A idéia do especialista em tudo, tal como se observa na prática se formos analisar friamente é um contra-senso: especialista requer foco, se você não o possuí então se torna o famoso “especialista em nada”.

Apesar do CMMI apresentar a política de reuso como uma das práticas a serem atingidas pelas empresas que queiram se certificar nos níveis mais elevados, não vêmos a sua produção e manejo tal como ocorreu no modelo japonês, europeu e norte-americano. E não: comprar componentes para o seu Delphi ou Visual Studio não caracterizaria sua fábrica no mesmo nível, pois esta não está criando componentes específicos para o mercado.

O mais próximo que vêmos do termo originário “fábrica de software” são empresas como a TOTVS que realmente constróem componentes para seus ERPs. Tirando isto, a fábrica que atende qualquer um está bem longe daquela que vemos na Hitachi de 1969. Ainda pior, vêmos na visão literal da fábrica brasileira a adoção de práticas claramente tayloristas, como o exagero de foco em índices e a alienação do profissional do processo produtivo o que propicia enormemente a ocorrência do assédio moral.

E fora do Brasil? O que houve com as reais fábricas de software?

Aparentemente o conceito de fábrica de software como técnicas visando máximo reuso de componentes não se popularizou. Elas com certeza existem, porém não há uma grande produção de artigos nos últimos seis ou sete anos sobre esta técnica. O mais próximo que pude encontrar da realidade brasileira no exterior foi um folheto da HP de 2003 no qual a ênfase se dá mais ao termo outsourcing do que fábrica ao oferecerem serviços de desenvolvimento de sistemas baseados nas práticas CMMI. Porém, lendo com atenção este documento você percebe características do modelo europeu sob a forma de ferramentas e técnicas de desenvolvimento.

O conceito de fábrica de software focado em componentização aparentemente adquiriu uma nova cara: integração de serviços, como pode ser visto, por exemplo, nesta apresentação da IBM aonde o termo é aplicado novamente. No mais, o termo basicamente caiu em desuso até onde pude observar, ou então simplesmente adquiriu outras formas como por exemplo SOA e outras práticas de integração de sistemas.

Conclusões

O que chamamos de fábrica de software não é uma fábrica de software, mas sim um serviço de outsourcing de desenvolvimento de sistemas, o que é bastante diferente.  A partir do momento em que adotamos metáforas ruins para descrever o que fazemos acabamos por nos enganar a respeito dos nossos reais objetivos profissionais, mas já falei algo sobre isto anteriormente.

Assédio moral em TI: fábricas de software (texto “final”)

Minha ausência do blog termina com este post que, acredito, seja o mais importante de toda a história do /dev/Kico. É nele que publico a versão final da minha pesquisa sobre assédio moral em fábricas de software que tornei pública alguns meses atrás.

Foi uma aventura acadêmica maravilhosa que mudou radicalmente a visão que eu tinha do nosso ramo, da política e do próprio modo como eu interagia e interajo com as pessoas com quem trabalho. É impressionante como a percepção que eu tinha do mundo mudou e evoluiu neste processo cujo resultado intermediário (acredito que nunca chegará a um final) apresento agora a vocês sob a forma deste artigo disponível para download neste post.

Apesar do texto final ter sido validado por dois advogados (Dr. Rafael Moraes de Carvalo Pinto e a Professora Mércia Cristina Scarpelli Reis de Souza) na apresentação do trabalho original que consistiu na minha monografia de conclusão de curso na FUMEC, tenho certeza de que ainda devem haver falhas no texto, mas meu objetivo final aqui não é ser o dono da verdade, mas sim divulgar o assunto para que mais pessoas da nossa área tomem conhecimento do problema.

É a minha contribuição para melhorar o ambiente de trabalho na nossa área. Claro que isto não ocorre em todas as fábricas de software, porém como exponho, estas apresentam características no seu funcionamento que propiciam a ocorrência do fenômeno.

Algumas coisas interessantes que me surpreenderam no processo de pesquisa:

  • O que muitos chamam de assédio moral não é assédio moral.
  • O que chamamos de fábrica de software não é fábrica de software, confirmando um post antigo meu no qual digo que o grande problema  é linguístico.
  • Que se você é interessado em processo, especialmente metodologias ágeis, deve prestar atenção nos modelos administrativos Fordista/Taylorista e especialmente no Toyotista (que não aplicamos direito).

Um aviso importante: não sou contra fábricas de software. O objetivo final deste trabalho é apontar pontos de melhoria, não recriminar.

Link para download: http://www.scribd.com/doc/149427238/Assedio-Moral-em-TI-Fabricas-de-Software

Assédio Moral em TI: Fábricas de Software

Dano e assédio moral em TI: o assédio

Continuando a série de posts na qual exponho os resultados da minha pesquisa sobre o fenômeno do assédio moral em empresas de TI com foco em fábricas de software vou expor agora o conceito de assédio moral no Direito, Sociologia e Psicologia.

Se você foi um dos que contribuiu com a pesquisa me fornecendo seus relatos anônimamente muito obrigado!  Neste post você poderá descobrir se sua experiência correspondeu ou não ao assédio moral. Vamos lá?

O que é assédio moral?

O interessante do assédio moral é o fato de haver um conceito bem definido (bem próximo da unanimidade) para o fenômeno. Um advogado lhe daria uma definição similar à que transcrevo abaixo, retirada da tese de mestrado “Assédio Moral no Ambiente de Trabalho e a Política Empresarial de Metas” de Rafael Moraes Carvalho Pinto:

“O assédio moral no trabalho significa a prática de qualquer ato (…) dirigido contra o trabalhador (seja o subordinado, o colega do mesmo nível hierárquico ou superior) ou um grupo de trabalhadores que, de maneira sistemática, abusiva e reiterada (…)  provoque, de forma deliberada, a degradação do ambiente de trabalho, capaz de ofender a dignidade da vítima ou causar-lhe danos psíquicos ou físicos”

Uou! Vou traduzir isto para uma linguagem mais próxima do nosso dia-a-dia em TI: o que Rafael quer dizer é que o assédio moral possuí três características que o diferenciam enquanto fenômeno. São elas:

1.  Degradação das condições de trabalho de forma intencional

No assédio moral há dois atores: o assediador e a vítima. O vilão da história tentará de todas as maneiras minar as condições que propiciam a qualidade na execução do trabalho da vítima. O objetivo é claro: tornar o trabalho do assediado o mais difícil possível, seja através da instalação de um clima ruim dentro da fábrica ou até mesmo impedindo que esta possa usar ferramentas que auxiliem o seu trabalho.

Na pesquisa que estou fazendo é muito comum a ocorrência do assédio moral entre programadores e testadores. Segue aqui um exemplo: o desenvolvedor se sente incomodado com um testador e começa a queimar o seu filme dentro da empresa com o objetivo de anular sua credibilidade. Como não é mais levado a sério pelos demais colegas de trabalho que questionam todos os bugs por este abertos seu trabalho se torna cada dia mais difícil até que em determinado momento o sujeito apela e sai da empresa.

Outro exemplo interessante: na codificação de determinado sistema nada obriga a utilização de um editor de texto ou IDE, no entanto para um programador específico torna-se obrigatório o uso de uma ferramenta com a qual não possua qualquer experiência, tornando seu trabalho ordens de magnitude mais difícil durante o período de adaptação, a partir do qual surgirão uma série de ataques minando sua auto estima e credibilidade entre os colegas.

Estes são apenas dois exemplos simples. De forma geral, fofoca em ambiente de trabalho direcionadas a um indivíduo ou grupo também podem gerar o mesmo efeito. A criatividade humana é infinita neste aspecto: sempre dá pra infernizar o trabalho alheio.

2. Repetição sistemática do ato de forma contínuada por determinado período de tempo

Sabe aquela história do “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”? Pois é: ela se aplica aqui. Um ato isolado não pode ser considerado assédio moral. O dano psicológico no profissional causado pelo assédio moral é ordens de magnitude maior que o decorrente do ato isolado.

Isoladamente, os fatos que constituirão um assédio moral podem parecer inofensivos. Não são raras as situações nas quais a vítima, ao relatar suas experiências toma como resposta frases do tipo: “isto é frescura sua”, “você ficou chateado só com isto?”, “nossa, você é sensível hein?” e por aí vai. Você percebe o assédio somente a partir do momento em que todos os fatos são vistos em conjunto.

A palavra assédio é usada por uma boa razão. Buscando em um dicionário você obterá uma definição similar a esta: “permanência ou repetição de uma conduta” ou “importunação”. Lembre-se: repetição e continuidade.

Não há uma definição rígida para a contínuidade do tempo ou da repetição do ato. Na primeira definição de assédio moral feita na Suécia pelo professor Heinz Leymann foi estipulado que o assédio moral estaria vigente se a continuidade fosse de no mínimo seis meses e os ataques ocorressem pelo menos uma vez por semana. Esta definição no entanto caiu por terra por não levar em consideração o nível da violência que poderia estar presente em cada ataque.

3. Direcionado a um grupo ou pessoa

Patinho feio

O princípio fundamental do assédio moral é a discriminação, ou seja, o ato de tornar explícita de forma negativa determinada característica (ou grupo de características) de um certo grupo ou indivíduo com o objetivo de isolá-lo dos demais. Talvez seja a característica mais cruel do fenômeno.

Normalmente tudo começa devido a alguma característica física do sujeito, assim como sua opção religiosa, sexual, modo de falar, vestir, etc. É muito comum sob a forma de ridicularizações, isolamento social, piadinhas, etc. Não é raro que os demais colegas de trabalho passem a evitar o assediado temendo que também sejam identificados com este e, com isto, se tornem vítimas também (covardes).

É a recusa da diferença do indivíduo. Interessante observar que o fator diferencial não necessáriamente é negativo. É muito comum o isolamento de profissionais justamente pelo fato de possuírem competência superior que cause medo em seu medíocre colega assediador. Um exemplo interessante é a vítima que foi elogiada por seu superior hierarquico devido à qualidade do seu trabalho diante dos seus colegas.

Os tipos de assédio moral

Há quatro tipos de assédio moral: vertical ascendente, vertical descendente, horizontal e misto.

No vertical descendente um superior hierarquico assedia seus subordinados. Muitas pessoas acreditam ser este o único tipo. Ocorre normalmente quando o administrador quer se ver livre de um subordinado sem ter de arcar com dispesas adicionais como por exemplo uma recisão de contrato. Então começa uma campanha composta por diversos pequenos ataques que vão minando o funcionário até que este desista e peça demissão.

O vertical ascendente ocorre quando um subordinado assedia seu superior. É muito comum em equipes de desenvolvimento quando, por exemplo, um novo gerente surge e a equipe não aprova seu modo de gestão. Neste caso, o pobre do gerente verá todas as suas decisões serem boicotadas pelos funcionários e sua moral ser estraçalhada até chegar o momento em que este desista de sua equipe. Muito comum sua ocorrência com gerentes inexperientes ou incompetentes.

A horizontal envolve colegas em um mesmo nível hierarquico. Pode ser ocasionada por mera competição, inveja, ciúme, medo, vaidade ou qualquer outro tipo de sentimento negativo que possa surgir entre dois ou mais indivíduos. Pelos relatos que vi costuma ser dos mais cruéis, envolvendo pequenos boicotes diários ou semanais, intrigas, ataques verbais, etc.

O misto, como o próprio nome já diz, ocorre quando há uma mistura dos casos listados acima. Ainda não encontrei um caso que eu possa usar de exemplo neste post.

Não confunda com assédio moral

Parece, mas não é (putz, to velho!)

Muitos dos relatos que recebi não eram assédio moral, mas sim outros tipos de problema. Abaixo segue uma pequena lista de “falsos positivos” que, acredito, seja importante divulgar a fim de evitar que você pague micos em sua empresa.

Estresse

O fato do seu trabalho ser cansativo e estressante não quer dizer que você seja vítima de assédio moral. Estresse é o conjunto de reações que o organismo têm em resposta a agressões de ordem física ou psíquica que sofremos e que pode alterar o nosso equilíbrio.  O que diferencia o assédio moral do estresse é a intencionalidade. O primeiro é intencional, o segundo não.

Há a gestão por estresse, em que um gerente incompetente força a barra da sua equipe a fim de obter uma melhor produtividade. Intencionalmente este gestor não quer causar danos à sua equipe, mas sim o contrário. Seus problemas de saúde neste caso serão causados pela desmedida e imbecilidade do “gerente”, e não por sua intenção maléfica.

Conflito

O conflito surge quando há opiniões e posições divergentes sobre determinado assunto. É normal em qualquer relação humana, e não pode ser considerado assédio moral pois é uma relação simétrica (ou quase) entre duas ou mais partes. Enquanto houver conflito mútuo o assédio estará longe de você. Não: suas discussões no fórum interno da empresa com os outros programadores não pode ser considerada assédio moral.

É interessante observar que a partir do momento em que surgir uma relação de dominação, em que uma das partes tentar submeter a vítima a suas opiniões, pode surgir um assédio moral (desde que leve às três características do assédio que citei acima). Meu conselho? Saiba discutir que problemas não vão surgir. ;)

Chefe agressivo (bossing)

Há o chefe agressivo, chato, insuportável que trata todos sem a menor delicadeza. Repare: ele não individualiza seu tratamento. É apenas uma pessoa incompetente no seu lidar com o próximo. Também não pode ser considerado como assédio moral. Resumindo: é apenas uma pessoa desagradável.

Este tipo de comportamento é também conhecido como “gestão por injúria”. É aquela anta que crê poder guiar seus subordinados através do grito. Steve Jobs adorava isto.

Agressões pontuais

Em qualquer emprego um dia alguém vai te chatear. Se for um fato isolado não pode ser considerado assédio moral. Claro: pode te causar um dano moral, mas esta é outra situação. Lembre-se: é preciso que haja uma repetição sistemática para ser assédio.

Más condições de trabalho

Se você trabalha em um lugar feio e desagradável, em que todas as pessoas (ou a maior parte delas) esteja sofrendo com o ambiente, isto não caracteriza assédio moral pois não há isolamento de um indivíduo ou grupo. É contra a lei, mas não é assédio.

Imposições profissionais (as regras da empresa)

Toda empresa tem suas regras. Ao ser contratado com certeza elas lhe foram informadas e você as aceitou, por mais chatas que possam parecer. É direito do empregador definir como seu negócio funciona.

Perfil do assediador e vítima

Não existem características que identifiquem de forma imediata um perfil assediador. Se houvesse seria discriminatório, o que jogaria todo este papo por terra. Normalmente é um conjunto de circunstâncias que leva alguém a desempenhar este papel. Pode ser que o sujeito seja realmente um mau caráter, mas também pode ser que o sujeito esteja sendo tão pressionado pela empresa que acabe acidentalmente desempenhando este papel. Esta é apenas uma das razões pelas quais um bom departamento de RH é importante dentro de uma empresa. O mesmo pode-se dizer a respeito do assediado.

Sendo assim, fica a dica: sim, você pode estar assediando alguém sem saber. Um pouco de auto crítica não faz mal a ninguém. E o contrário também é verdade: talvez sua auto estima esteja tão abalada devido à ação de um assediador que sequer se deu conta disto. Afinal de contas, foi uma série de pequenas agressões qeu acabaram por destruir a sua identidade, não é mesmo?

Continuando o trabalho

Neste post espero ter traduzido de uma forma mais clara o que vêm a ser o tal do assédio moral. No primeiro post quando pedi às pessoas que me fornecessem seus relatos não expus este conceito de forma tão clara para que pudesse ter uma visão a respeito da percepção do fenômeno que as pessoas tem. Agora que espero ter clarificado mais as coisas, peço novamente que me ajudem relatando experiências que tenham vivenciado. Com isto poderei tirar uma série de dados estatísticos com o objetivo de traçar um perfil do fenômeno em nossa área de atuação.

Basta clicar neste link para preencher o formulário. Seu anonimato é garantido. A título de curiosidade, 70% dos relatos não eram de assédio moral. :)

E como a fábrica de software propicia a ocorrência do assédio moral? Isto é assunto para o próximo post. ;)

Pesquisa sobre dano e assédio moral em TI: contribua!

Após a publicação ontem do meu primeiro post sobre a questão do assédio e dano moral em TI no qual expus o conceito de dano moral, recebi alguns e-mails com relatos muito interessantes.

Como algumas pessoas ainda não se sentem à vontade para relatar suas experiências, criei um formulário no Google Docs que permite a você relatar as experiências pelas quais você já passou ou presenciou de forma completamente anônima.

Peço para que, ao relatarem suas experiências, a fim de garantir seu anonimato, evitar ao máximo possível a divulgação do nome da empresa aonde ocorreu a agressão.

O objetivo é termos um perfil das ocorrências mais comuns na nossa área de modo a, assim, termos o ferramental básico para podermos tanto evitar este tipo de situação e também para sabermos como lidar com estas assim que surgirem. Acredito que com isto todos ganharemos (e muito). Conto com vocês!

Segue abaixo o link para o formulário e, mais uma vez, muito obrigado a todos pela participação.

Formulário de experiências relativas a assédio e dano moral em TI.

Dano e assédio moral em TI: o dano

Comecei uma longa pesquisa sobre a questão do assédio e dano moral no ambiente de TI focando em fábricas de software. Dois fatores me motivam: minha experiência pessoal  e uma série de leituras e conversas que tive com meus amigos advogados (especialmente Nanna, é claro) sobre o tema. O interessante é que, conforme progredia na pesquisa mais nítido ficava o fato de ser algo assustadoramente comum e simplesmente ignorado pela maior parte dos profissionais. É grande a probabilidade de neste momento você estar assediando ou sendo assediado moralmente sem ter consciência disto.

Amigos advogados: este texto é escrito por um leigo no assunto. Por favor, encontrando erros, me repassem o mais rápido possível para que eu possa fazer as devidas correções ok?

O que é dano moral?

O primeiro passo para poder tratar do assunto é definir o seu escopo. Irei tratar aqui apenas do ambiente de trabalho tentando me aproximar ao máximo do foco de minha pesquisa que são as fábricas de software.

Nossa idéia inicial de “dano” é algo que nos cause um prejuízo físico direto (os juristas adoram usar a palavra “pecuniário”). Exemplo: pego seu notebook e o destruo na sua frente. Jurídicamente, o dano é sempre causado por outro e deve ser reparado. Isto fica evidente no artigo 159 do Código Civíl Brasileiro:

“aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência violar direito ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano”.

Já o dano moral é imaterial: ocorre quando há um ataque à pessoa ou honra do trabalhador e este gera-lhe prejuízo sob a forma de dor ou por perda de credibilidade perante seus colegas e clientes. É fácil reparar um dano material: você põe a mão no bolso e paga o prejuízo. No entanto, como proceder quando sua imagem foi ferida? Qual o preço a ser pago? Questão complicada.

Na minha pesquisa estão sendo feitas consultas à sentenças (“jurisprudência” em juridiquês) relativas a danos morais e também a diversas experiências que venho recebendo por e-mail nos últimos dias. Um exemplo comum: a divulgação na empresa de que um funcionário seja incompetente devido a um erro cometido no passado. A credibilidade do sujeito é destruída e difícilmente consegue ser levado a sério  pelos colegas devido a um único fato isolado.

O interessante do dano moral é que suas consequências são muito mais profundas. Podem levar o indivíduo a sérios problemas de saúde física e mental, destruição de sua carreira, relacionamentos familiares e mesmo levá-lo ao suicídio.  E o pior: é difícil de ser provado, pois as evidências irão se basear no testemunho dos colegas (que naturalmente terão medo de se posicionar) ou raríssimas provas físicas.

Uma consequência terrível do dano moral em TI é que este mesmo indenizado difícilmente é reparado pois cria-se uma imagem negativa da vítima por parte dos colegas de trabalho que não é fácilmente apagada na maior parte das vezes, normalmente pelo fato da vítima ser rotulada como “pessoa difícil”, “exageradamente sensível”, “fresca”, “complicada”, “chata”, etc. Aliás, este rotular já dificulta qualquer reação por parte da vítima, que muitas vezes se auto recrimina injustamente. Nestes casos, o ideal é sempre procurar um terceiro não envolvido no caso e relatar-lhe a situação para que possa ter uma visão mais abrangente do caso.

Sobre a evolução do conceito de dano moral, há um texto interessantíssimo de um Juíz de Direito chamado André Gustavo C. de Andrade que pode ser lido neste link: “A Evolução do Conceito de Dano Moral”.

Relato interessante: estagiário

Recebi por e-mail um relato interessantíssimo de um estagiário que, contratado por uma fábrica, foi lhe dada a responsabilidade pela execução de uma tarefa de alta responsabilidade na implementação de um sistema. Dada sua inexistente experiência e a dificuldade da tarefa e ausência de apoio por profissionais experientes, lógicamente cometeu alguns erros em sua execução. Como consequência direta foi divulgado entre os colegas sua incompetência para a área de desenvolvimento e passou a ser isolado da equipe até o ponto deste se ver completamente à toa durante vários dias, levando-o a sair do estágio e, logo em seguida, mudar de área.

Vê-se aqui um dano direto à reputação de um indivíduo sem que este sequer tenha a chance de provar o contrário (caramba, com base na primeira experiência do sujeito!). E o pior: a perda de um profissional em nossa área. Não há um dano físico direto, mas sim indireto: a perda de produtividade do colaborador que, ao sair, acabará por trazer danos à imagem da empresa aonde atuou ao narrar suas experiências às pessoas de seu círculo social. Sim: o dano moral deveria ser levado em consideração pelas empresas por lhes gerar prejuízo direto.

Por que tão comum?

Acredito que sejam duas as causas do dano moral ser tão comum entre empresas. A primeira é nossa própria ignorância a respeito do assunto. Eu mesmo só vim a saber do que era o problema em uma leitura de banheiro que me fez refletir a respeito das minhas próprias experiências. Se não temos como delimitar bem o objeto, difícilmente saberemos como tratá-lo.

A segunda causa é o medo de reagir. São raros os casos em que a vítima processa a empresa ou tem coragem de responder ao agressor. Muitas vezes a reação é impossível pelo fato do indivíduo ter sua auto estima tão danificada que a própria coragem desaparece. A grande pergunta que vejo colocada é: “e depois de ter reagido, como ficará meu ambiente de trabalho?”. Ao ser rotulado de “difícil” ou “complicado”, a coisa fica ainda mais complicada.

E o assédio moral?

Este é assunto para um segundo post que pretendo escrever em breve. Primeiro é importante entender a base da coisa que é o dano moral. Aliás, é neste ponto aonde as conclusões mais interessantes da minha pesquisa estão sendo encontradas. Estou apenas compilando melhor os resultados para poder apresentá-los a vocês em breve.

Preciso da sua ajuda

Estou baseando minha pesquisa também nos relatos que venho coletando. Sendo assim, caso tenha passado por situações similares às que apresentei neste texto, por favor, peço para que me envie por e-mail (loboweissmann@gmail.com). Garanto que sua privacidade será garantida e seu nome jamais será divulgado.

Com esta pesquisa tenho o objetivo de divulgar o problema para, assim, evitar que este se propague e, com isto, ganhamos todos um mercado de trabalho muito mais saudável.

Participe anônimamente – Update 11/2/2013

Publiquei no Google Docs um formulário que permite a qualquer um, anônimamente, publicar seus relatos.
Para acessá-lo, basta clicar neste link.

Para maiores detalhes, confira o post em que anuncio o formulário.