Cilada: a fábrica de doces e o desenvolvedor infantil

fabrica_doces“Trabalhe conosco: temos máquina de café expresso, videogame, ambiente divertido, aconchegante e uma equipe super cool!”. Até quando a infantilização do desenvolvedor vai continuar hein? Mais um daqueles posts que diminuem minha empregabilidade. :)

Venho observando uma forte tendência da infantilização do desenvolvedor. Vejo isto em eventos, ofertas de emprego, propagandas, matérias nítidamente pagas em revistas e jornais. Talvez seja mera impressão de um sujeito que está envelhecendo (torço para que seja), mas quanto mais converso com meus amigos e contatos mais esta impressão se materializa diante de mim (e você). Yeap: mais uma armadilha para desenvolvedores.

O que é um bom ambiente de trabalho?

Se você acompanha meu blog sabe que um dos meus assuntos favoritos são as condições de trabalho. Óbviamente sou a favor do melhor ambiente possível tanto como funcionário como empregador (sou os dois), mas como diz aquele ditado, quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Então me escutem: desconfiem, e muito!

Pense comigo: o que é melhor? Um ambiente de trabalho que surge naturalmente ou artificialmente? Aliás, indo além, o que é um bom ambiente de trabalho? Após alguns anos cheguei a uma definição que acredito ser bastante justa.

O bom ambiente de trabalho é aquele no qual o trabalhador extrai satisfação para si ao executar sua função.

Com base nesta definição óbviamente que o salário é importante mas não o fundamental. Digo por experiência própria: alguns dos trabalhos mais fascinantes da minha vida eu sequer recebia bem e em alguns casos literalmente paguei só pelo tesão da missão (juro). Claro que ganhar bem ajuda bastante, mas acho que você entendeu aonde quero chegar.

É como Vandinha sorrindo: freako!

É como Vandinha sorrindo: freako!

Então quando vejo estas propostas de trabalho nas quais a pessoa do RH repete enfáticamente que é oferecido o melhor ambiente imaginável não consigo parar de lembrar daquela cena do filme “Família Adams” (nem lembro mais qual) em que Vandinha é forçada a sorrir. Soa tão assustador!

Mas sabe: me perturba hoje que tenho 34 anos e alguma experiência: se tivesse 10 ou 15 anos a menos acredito que acharia sedutor como aquelas lâmpadas que usamos para matar mosquitos: brilhantes, aconchegantes, convidativas e fatais.

Dica: felicidade surge naturalmente. Quando vêm de forma artificial mostra que há algo muito errado por trás disto. Se você é de fato feliz e vive em um ambiente agradável isto é natural pra você: não precisa alardear por aí.

Aqueles benefícios divertidos!

“Temos máquina de café expresso, videogame, sofás confortáveis, quadra de tênis e você pode trazer o seu cachorro para trabalhar com você”. Na maior parte das propostas que vejo deste tipo perguntas básicas como “qual o plano de carreira?”, “o salário é competitivo?”, “horas extras são comuns?” sequer são mencionadas. E sabem o que é mais legal? É que sempre tem uma aparência incrívelmente jovial: por que será hein?

(certa vez em uma entrevista o dono da empresa me disse que eles eram modernos por usarem o software “cranks” de comunicação interna. Na época achei massa, mas anos depois me pergunto: E DAÍ???)

Sabem o que penso? Que se não me respondem a estas perguntas que fiz acima de forma satisfatória os tais benefícios (que se você for contar na ponta do lápis, são bem baratos pra empresa) nada mais são que distrações para que a mão de obra seja o mais barata possível. Talvez por isto o foco na infantilização do profissional: afinal de contas crianças são mais fáceis de serem  manipuladas, não é mesmo? E como você pode reclamar de um lugar que te oferece tanta diversão e prazer ao mesmo tempo? Humpf, seu ingrato(a)!

A imagem do Google ou da Microsoft sempre são mencionadas, mas curiosamente não dizem que estas empresas oferecem este tipo de “benefício” ao funcionário porque tem capital para tal e anos de cultura empresarial que garantem o equilíbrio. Ainda pior: “esquecem” de te contar que, dado seu horário de trabalho, a não ser que você não trabalhe, é claro, a maior parte do seu dia não será gasta com estes brinquedos.

Dica: troque os brinquedos por coisas mais sólidas como por exemplo a perspectiva de crescer (tanto profissional quanto intelecutalmente) no executar das suas tarefas ok? Brinquedos você compra fora do trabalho com seu salário caso seja bem pago. Nâo se valoriza funcionários com diversões tolas, mas sim com desafios intelectuais reais que ofereçam uma possibilidade de crescimento paupável.

Ah: e para não ficarem muito curiosos, a cena que mencionei do filme “Família Adams” é esta:

16 thoughts on “Cilada: a fábrica de doces e o desenvolvedor infantil

  1. Ótimo post!

    Já fui vítima dessa armadilha e meu conselho é: quando perceber que não está tendo um crescimento pessoal, profissional ou intelectual, saia da zona de conforto e busque novos desafios.

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  2. Boa reflexão Kico!

    Mas, uma coisa importante, que talvez você não tenha se ligado, é que cada vez mais está mais difícil montar uma boa equipe (em quase qualquer segmento), e este tipo de ambiente faz o adolescente (o cara que tá lá no segundo grau) já pensar, “quero trabalhar naquela empresa”.

    Nunca tive tantos “atrativos” na minha empresa, mas, o clima sempre foi excepcional, e por algumas vezes as pessoas vinham pra entrevistas e diziam “me falaram que trabalhar aqui é muito legal e fiquei interessado”, e se tornaram ótimos funcionários..

    Mas, seu ponto de vista é bem certo e muito bem colocado!

    Abraços

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  3. Concordo plenamente Kiko, ótimo texto!

    Nunca entendi este tipo de “benefício”. Como algo que vai me fazer passar mais tempo no trabalho pode ser um benefício? Aliás, corroborando com sua tese de que quase não são utilizados, às vezes a empresa quer implantar porque ouviu falar que é legal, porque os “Googles” fazem assim, e aí acaba implementando pela metade, digamos assim, apenas materialmente, mas não culturalmente. Lembro vividamente de uma vez que foi colocado um video-game e uma TV 42” a disposição do pessoal, mas dificilmente alguém jogava, com medo de ser julgado por vadiagem.

    Não sei se este é um reflexo da infantilização dos adultos de hoje em dia, as pessoas vivem mais tempo com os pais, acabam amadurecendo mais tarde. Como não passei por isso, não sei avaliar exatamente, deixo para os antropólogos.

    Mesmo assim, acredito que possam sim ser oferecidos benefícios que fogem do padrão “salário-carreira”. Por exemplo, eu acho um baita benefício uma cadeira confortável de verdade. E o que falar de horário flexível? E dois monitores, eu trocaria de empresa para ter dois ou mais monitores para trabalhar :) O salário é importante, mas não é o principal, basta estar na média do mercado.

    Abraços!

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Oi Uilian, ai que tá o grande problema.

    O pessoal vê como benefício o que não é benefício, mas sim obrigação da emrpesa: uma cadeira realmente confortável, por exemplo, não é benefício, é obrigação da empresa devido a necessidades ergonômicas.

    Aí colocalm lá um video game, uma cozinha com gostosuras, etc: na prática, são coisas legais, sem dúvida, mas difícilmente agregam algo *de fato* para o funcionário. E outra: se não fazem parte da cultura natural da empresa, ainda rola o que você está falando aí.

    Muita gente entendeu com este texto que sou contra estes “benefícios”. Não, não sou: só sou contra quando são usados de uma maneria que no final das contas desvaloriza e ferra o funcionário.

    E um alerta: são defesas da empresa contra processos de assédio moral muitas vezes. O argumento usado é “nosso ambiente é fantástico, olha só o video game e a quada de squash. Precisa de mais alguma coisa?”

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  4. Muito bom o texto, Henrique.

    Concordo com seu ponto de vista e penso também que o ambiente de trabalho tem que ser bom, mas de nada adianta ter mil coisas, se o básico não há.

    Por exemplo, empresas que oferecem videogames, lanche, etc, mas você trabalha num computador ultrapassado, não tem um monitor e cadeira bons e principalmente não tem uma perspectiva lá dentro.

    É interessante ver a diferença do Google para estas empresas que oferecem mil “benefícios”. O Google quer te poupar o tempo de sair pra procurar almoço te oferecendo um excelente almoço de graça, te oferece lanches para que você possa lanchar lá mesmo enquanto discute um problema. Oferece academia, lavanderia, etc, para que o profissional precise se preocupar o mínimo possível com isso e possa fazer tudo dentro da empresa, ganhando tempo para ele e obviamente para o Google.

    Então é uma questão de poupar tempo e esforço para o empregado e ter um cara mais produtivo para a empresa.

    Já estes benefícios de algumas empresas duvidosas são para, além de atrair os mais jovens que acabaram de formar, mas para também pagar abaixo do mercado e o cara ficar lá porque a empresa é “cool” ou oferece várias coisas que outras não. Porém, quando se faz as contas, na verdade até na questão financeira o cara está perdendo e muitas vezes também perde na qualidade do ambiente trabalho (ergonomia, boas ferramentas/hardware, softwares, livros, cursos, etc). Para não se falar na falta de oportunidade nesta própria empresa, que quer contratar barato e não oferece nada concreto para o profissional.

    Agora, deixo bem claro que na minha visão o profissional é responsável pela sua própria carreira. Mas, se ele escolher uma empresa ruim porque não soube pesar os benefícios ou foi iludido, isso influencia na carreira da pessoa.

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  5. Excelente ponderação Henrique!

    Ainda mais quando li os comentários concordando que ninguém é contra este tipo de coisa. Mas acho que a reflexão sobre a carreira só vem com a experiência mesmo. O que as empresas tentam fazer, como já foi tateado aqui, é exatamente atrair e reter de alguma forma os jovens talentos.

    E é claro que se todo esse “ambiente” não for criado de forma a realmente beneficiar o jovem, ele simplesmente procura outro lugar pra ser feliz. Essa nova geração não tem nenhum pudor (nem medo) de trocar de emprego, de opinião ou de roupa. :)

    Parabéns pelo texto!

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Oi Marcel, que bom que gostou, obrigado!

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  6. Muito bem abordado, concordo com você, pessoalmente falando, trocaria todas essas firulas por poder trabalhar em casa, sem trânsito, no meu conforto, estar na empresa somente quando necessário, e agregando o todo, plano de carreira, salário, etc…

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  7. Não concordo.
    Acredito que essa distinção entre expectativa de um ambiente de trabalho de qualidade difere entre as gerações.
    O trabalhador jovem não está preocupado com vale alimentação ou plano de saúde, e sim um local onde ele pode expor suas ideias, suas vontades, etc.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Legal, mas isto independe de te infantilizarem ou não.

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  8. Olá, Gostei muito do texto, me trouxe reflexões interessantes .
    – Horários flexíveis, permitiria acesso a palestras e cursos que horários engessados não facilita muito.
    – Lavanderia, academia, restaurante, facilita bastante no gerenciamento do tempo, você pensando na logistica de chegar alguns minutos mais cedo por a roupa na lavanderia, economiza muito mais tempo do qual você gastaria quando chegasse em casa por exemplo.
    – O quesito videogame e outras atividades lúdicas, bom acredito que vai de controle de cada um, se você consegue passar apenas 30 min fazendo uma pausa utilizando esses benefícios ou se vai ficar lá por 1h. A medida que não atrapalhe na produtividade, metas diárias cumpridas, não terá problemas. Conheço relato de uma empresa que reservou um horário do dia para seus funcionários jogarem COD, mas só quem pode participar são os que cumpriu as suas tarefas pra aquele dia, e quem já terminou acaba apoiando e ajudando aqueles que não conseguiram.
    – Em contra partida entendo que disciplina, é importante para tudo o que for fazer, principalmente na área profissional.
    Cadeiras confortaveis, e condições de trabalho decente é o mínimo que a empresa tem que oferecer.

    Gostaria de deixar uma pergunta
    Como vocês acham que vai ser as melhores condições de trabalho daqui a 5 – 10anos?

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  9. Parabéns, concordo plenamente com esta vertente.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Obrigado!

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  10. É o que venho comentando com amigos que tem mais ou menos da minha idade e tempo de experiência. Bom ambiente de trabalho nada tem a ver com bilhar, video game, comida, cerveja/refrigerante a vontade, etc.

    Tem mais a ver com estrutura boa para o trabalho como internet/rede, maquinas, cadeiras, mesas, predio confortável e outras coisas.

    Eu costumo dizer que com isso e um bom café, não preciso de mais nada pra desenvolver meu código. Hehehe!
    Ah, poder vestir de maneira mais confortável também ajuda. Não ter aquele código de vestimenta no ambiente de trabalho, poder usar o bom jeans e camiseta.

    Aí tá bom!

    Boa reflexão, rapaz, parabéns!

    Um abraço!

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  11. Acredito que o excesso é ruim, vídeo game não tem nada haver com local de trabalho, não agrega nada.. mas acho que muitas empresas usam tudo isso como marketing.. na era atual dá a impressão que existem as ’empresas antiquadas’ e as ‘modernas’, isso gera um rebuliço no meio e talvez possa fazer a diferença como um marketing apenas.

    Apesar de não achar que tudo isso vá fazer diferença no trabalho final, eu tbm não sou contra, rsrsrs.. eu nunca iria jogar video game em uma empresa, nem ia programar sentado em puff que minhas costas não encaixam, que não tem design ergonométrico .. mas eu não gostaria de trabalhar em uma empresa rígida e chata que não dá liberdade para se fazer as coisas, sabe, o microgerenciamento, isso é terrível em qualquer meio.

    Eu ainda gosto de programar sentado em uma cadeira, na frente de uma mesa, e gosto de ver meu trabalho sendo feito ao invés de ficar com distrações.. mas parece que tem uma geração mais nova que carrega consigo um gosto diferente, gosta de trabalhar vendo gente andando de patins pela sala, etc.

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