Assédio moral em fábricas de software: culpando a vítima

Assédio moral em fábricas de software: culpando a vítima 1

Fábrica: uma metáfora bastante infeliz

Quando resolvi investir meu tempo estudando o fenômeno do assédio moral em fábricas de software resolvi buscar ajuda de diversas pessoas que considero formadoras de opinião. Meu pedido era simples que me ajudassem na divulgação da pesquisa para que o número de relatos fosse maior. Isto me propiciaria dados estatísticos que seriam muito importantes para traçar o perfil tanto do assediado quanto do assediador neste ambiente.

Infelizmente a maior parte das pessoas que procurei não pode ou simplesmente não quis me ajudar, mas uma das respostas que obtive  foi tão brutal que só hoje, meses depois, é que consigo escrever a respeito. Bom: a resposta foi basicamente a que transcrevo a seguir:

Sinceramente não entendo como alguém pode trabalhar em um lugar destes (fábrica de software) e muito menos se sujeitar a este tipo de coisa: sinto muito, este tipo de pessoa tem mais que se ferrar, então não contribuirei com o seu trabalho. Passar bem.

A dor da decepção só não foi maior porque tirei proveito da situação para pensar profundamente sobre o assunto.  A resposta apesar de tosca carrega em si uma profundidade abismal que só tocarei brevemente (ainda há muito que quero escrever sobre isto, incluindo minha experiência pessoal).

Como alguém pode trabalhar “neste tipo de lugar”?

Simples: por que muitas vezes é o que você consegue e, além disto, pode parecer chocante o que direi, mas há muitas fábricas de software aonde eu gostaria de trabalhar. Maniqueismo é visão de gente limitada: há inúmeros tons de cinza entre os extremos e acredite, sempre você consegue tirar algo bom da experiência. Um dos empregos mais bacanas que tive foi em uma fábrica de software inclusive, aonde conheci pessoas maravilhosas e com as quais mantenho contato até hoje.

É questão de por os pés no chão e em seguida perceber e aceitar a diversidade. Baixar o nariz e fazer o que quase toda religião nos diz: anular o ego e adquirir humildade. Simples assim, resposta data.

Como alguém se sujeita ao assédio moral?

Em um post anterior apontei as principais características do fenômeno assédio moral. São três:

  • Degradação do ambiente de trabalho de forma intencional.
  • Repetição sistemática do ato de forma continuada por determinado período de tempo.
  • Direcionado a um grupo ou pessoa.

A razão pela qual a pessoa “se sujeita” é consequência do segundo e terceiro ponto. O assediador costuma agredir sua vítima sistematicamente de forma bastante comum usando pequenos ataques. São atitudes que soam simples e inofensivas quando vistas isoladamente, mas que após o acúmulo com o tempo simplesmente destroem a auto estima do assediado, que começa a realmente acreditar que o problema é com ele. Lembra muito uma tortura chinesa: pequenas gotas que te destroem.

O fato de ser direcionado garante a discriminação do assediado: este é isolado dos demais. Este isolamento se apresenta de duas formas: a mais óbvia é no corte do convívio social com os colegas que o evitam para que não sofram consequências (muito comum). A segunda é por parte da própria vítima que, por estar com a auto estima destruída se sente constrangida e indigna do convívio com os demais.

No texto “final” da pesquisa há um trecho em que digo só ter conseguido 19 depoimentos. Um advogado a quem temo muita estima (o Dr. Raphael Moraes de Carvalho Pinto) ao ler este pedaço me repreendeu imediatamente. Não são “só” 19, na realidade consegui DIVERSOS depoimentos. As vítimas simplesmente não conseguem falar a respeito por sentirem vergonha (um comportamento muito similar ao experimentado por vítimas de violência doméstica e sexual). E digo por experiência própria: só hoje começo a conseguir falar sobre  minha própria experiência (a pesquisa foi minha terapia).

A violência do assédio moral é imensa, silenciosa e covarde. A vítima perde totalmente a capacidade de se defender ou de falar a respeito por acreditar ser a fonte do problema. Apenas um dado estatístico: Heinz Lehmann estimou que 15% dos suicídios na Suécia eram diretamente relacionados ao assédio moral. A coisa MATA.

Concluindo

Quando vemos alguém sofrendo uma injustiça é muito comum recriminar a vítima por não reagir. Postura esta que, na minha opinião, simplesmente alimenta a ocorrência do fenômeno do assédio moral. Sim, se você diz por aí este tipo de coisa e pensa assim mesmo após este texto, saiba que você contribui diretamente para que este tipo de monstruosidade ocorra.

A vítima se sujeita por que posturas recriminatórias como a que mencionei alimentam a vergonha e aniquilam (sim, aniquilam) a auto estima do assediado.

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