Pirateando livros e ferrando o Brasil

piratas

Escrever um livro mudou profundamente a visão que eu tinha a respeito da pirataria e após longas conversas com amigos e Nanna chegamos a conclusões bastante interessantes.

Como é escrever um livro

Minha experiência pessoal possivelmente é similar à de diversos autores. Foi um trabalho hercúleo no primeiro e está sendo ainda maior no segundo (e terceiro). Pra começar faço a melhor pesquisa bibliográfica que conseguir (e acreditem, sou muito bom nisto (é um dos usos práticos do curso de Filosofia)). A leitura mínima para uma publicação gira em torno de umas 10.000, 20.000 páginas contando artigos, livros, posts em blogs, anotações, código-fonte e muito mais. De fichamento para o meu primeiro livro  tenho algo em torno de umas 1500, 2000 páginas (fichamento). (e sim, há um forte investimento financeiro na obtenção deste material)

O estudo é a parte fácil e enriquecedora da coisa: logo em seguida vêm a escrita. E posso lhes dizer: dói. São noites sem dormir, dias com idéias fixas e insights que soam geniais no primeiro momento para se mostrarem cretinos no dia seguinte. Entram aí terríveis bloqueios, horas  inerte diante de um teclado. É o período no qual dou graças aos céus por ter me casado com alguém que me entende e incentiva, pois não acredito que outra pessoa me suportaria.

Yeap: você passa a pensar duas vezes antes de piratear qualquer coisa, e depois de sentir na pele como eu senti ao ver minha “criança” sendo pirateada no Mercado Livre você está vacinado contra pirataria.

“Justificando” a pirataria

Só há uma justificativa para a pirataria: é fácil e você não pensa no produtor. É simples assim: nós apenas queremos ter acesso á música, livro, jogo, etc da forma mais barata possível. Recentemente em uma discussão vi uma série de argumentos comuns que vale muito à pena destruir aqui.

“Quem nunca pirateou que atire a primeira pedra. Seu hipócrita, você não tem moral alguma pra dizer algo contra o ato de piratear porque também já o fez”

Há tanta coisa errada neste argumento que sou obrigado a me focar em apenas alguns detalhes. O primeiro é o fato deste ser baseado em um mundo estático. Se cometi um crime no passado e depois percebi que estava errado (e de preferência paguei pelo prejuízo causado) sim, eu posso recriminar a prática o tanto que eu quiser. Uma vez errado não implica em sempre errado. É como impedir um viciado de falar sobre os males que o vício causa.

E outra: na minha opinião justamente quem pirateia é que deve discutir o assunto para que, no diálogo com o mercado, este possa pensar em alternativas para minimizar o problema sem ferir o consumidor.

“Não vale o preço cobrado.”

O que acho mais interessante neste argumento é que raríssimas vezes o vejo acompanhado de uma justificativa que comprove o elevado preço do objeto. Interessante que, mesmo se viesse, ainda não justificaria o roubo e, se o justificasse, tornaria o furto quando executado pelos menos favorecidos um ato heróico.

Se realmente for muito caro você não precisa roubar a coisa: apenas espere para que o próprio mercado obrigue o fornecedor a baixar o valor não pagando por esta. Há ainda os que acreditam que toda produção cultural deva ser distribuida gratuitamente, como se escrever um livro, compor uma música ou pintar um quadro não fosse trabalho digno de remuneração.

“Em um país como o Brasil criticar a pirataria não faz sentido.”

Interessante: então quer dizer que existem países nos quais a pirataria deve ser a norma? Discordo: justamente por estarmos no Brasil aonde a pirataria impera é que devemos criticar e discutir ao máximo possível a prática.

Há um aspecto filosófico muito interessante neste argumento: implícitamente ele diz que o “bom” é aquilo feito pela maior parte das pessoas, tipo um “maria vai com as outras moral”. A liderança assim como as revoluções positivas normalmente surgem quando alguém se opõe a um movimento que claramente só trás danos.

Por que pagar se posso ter de graça?

Este é o argumento mais difícil de bater. O máximo que posso fazer é expor a razão pela qual vale à pena pagar. Pagando você incentiva a produção: com mais gente comprando você pode baixar o preço. Muitos vão dizer que não é sempre o caso (vide Apple), mas quando falamos de produção literária, sim, é o caso.

Eu por exemplo penso sériamente em viver da escrita, não o faço (ainda) em grande parte devido à pirataria que inviabiliza muita coisa. Fico pensando na maravilha que seria uma O’Reilly investindo no mercado nacional. Agora: como justificar para um estrangeiro o risco de apostar em um país em que as pessoas acham natural compartilhar em redes sociais e-books?

E posso dizer isto por já ter sentido na pele como fornecedor também. Meus últimos clientes no mercado livreiro de distribuição fecharam por não conseguirem competir com a pirataria digital (tablets). Então sim: a pirataria está trazendo problemas reais.

Você paga pelo que poderia obter de graça por que quer viver em um país melhor e mais culto. Por que gostou do que o “otário” produziu e quer ver qual será sua próxima novidade, por que você quer se encontrar com ele e não sentir lá no fundo vergonha por ter lhe passado a perna.

#pronto_falei

Update 20/7/2014

Novamente passei por uma situação desagradável envolvendo pirataria do meu trabalho. Me foram expostos uma série de argumentos a favor da pirataria inclusive. Argumentos estes que não se sustentam, o que me fez escrever um novo post sobre o assunto que pode ser acessado neste link.

Pequeno adendo: 13/7/2013: 8:30

Quando as pessoas dizem que pirataria tira empregos normalmente parece que é algo longe de nós, mas no meu caso é bem próximo. Uma das razões pelas quais a plataforma Livreiro que desenvolvi no início da minha carreira simplesmente acabou foi por causa da pirataria que os tablets propiciaram aqui no Brasil. Então, sim: tá aí um exemplo real da consequência.

 

87 thoughts on “Pirateando livros e ferrando o Brasil

  1. Parabéns pelo post, deve ser triste ver o pessoal pirateando seu livro que custa menos que os caras gastam em cerveja no final de semana. Como todos também já baixei livros, mas recentemente comecei a comprar(e-books) e para mim vale cada centavo, ter um livro em versão digital que não é um scan de um xerox vagabundo tem seu valor.

    E estimular a produção de conteúdo nacional é louvável, particularmente não aguento mais livros com exemplos de contexto gringo(beisebol, etc) que não entendo o contexto quanto mais o conteúdo que querem passar :)

  2. Oi Rodrigo, valeu.

    Na realidade o que acho mais triste é ver a produção nacional simplesmente se ferrando com isto. Sou um daqueles malucos que quer viver num Brasil foda.

  3. Vez ou outra alguém me pergunta por que pago por um e-book cuja versão em PDF se encontra fácil no it-books. E quando recomendo um livro a alguém e digo que não posso emprestar por que li a versão digital, logo me perguntam se tenho o PDF pra passar.

    Infelizmente, no Brasil, não aproveitar uma oportunidade de obter vantagem, ainda que de forma desonesta, é sinônimo de fazer papel de bobo.

    Os livros que leio, em sua maioria, são um investimento que faço em minha formação. Que moral eu teria como profissional se precisasse roubar livros para obter o conhecimento que tenho?

    Além disso, a qualidade de um PDF ou xerox é muito inferior a qualquer formato comprado legalmente. Ainda que se ignore a questão ética e o reconhecimento aos que produzem o material, simplesmente não vale a pena.

    Prefiro continuar ‘fazendo papel de bobo’ a fazer essa ‘economia de brasileiro’.

    Aproveitando, deixo uma dica para quem quer economizar em livros técnicos internacionais, sem recorrer a pirataria: o site http://www.informit.com/deals/. Só não deixem de conferir antes se o valor do e-book para o Kindle não está mais barato que a oferta do dia. As vezes acontece.

  4. Oi Rafael,

    depois que você passa pela experiência que eu passei você fica estupefato com a naturalidade com a qual as pessoas simplesmente roubam muitas vezes sem se darem conta.

    Você vê, por exemplo as pessoas agindo de forma extremamente natural e defendendo com unhas e dentes seu direito de piratear.

  5. Cara, li este seu post quando foi publicado. Me tocou de forma muito profunda na época.

    Especialmente quando você escreveu “A Hellobits não é uma empresa. Sou eu.”. Foi impressionante como duas frases suas resumiram tudo o que eu senti.

  6. Pois é… passei por isso várias vezes, também. A pseudo-solução que encontrei foi pesquisar, de tempos em tempos (tenho feito isso toda semana) pelo meu próprio livro no Google. Assim que acho, já peço para bloquearem.

    []’s

  7. É quando o Nando disse isso me fez refletir tbm, eu pensei ” Caraca véi, e estou a quase 2 anos pra escrever um artigo num blog e não consigo, e como que esses caras conseguem escrever artigos, trabalhar, se atualizar, ser um excelente Pai, Marido, Filho?”

  8. É o tipo de coisa que você faz porque ama muito fazer. Muitos acham que gera dinheiro e tal, mas isto é mito.

    Eu, por exemplo, sinto uma compulsão pra fazer isto. De repente, como ontem a noite, pipocam coisas como este texto. E se você não amar muito, acaba parando.

    O grande incentivo são os leitores e o que você aprende com as bobagens que escreve de vez em quando que são corrigidas por estes. :)

  9. Oi Alexandre: cara, eu nem pesquiso mais.
    Sabe o que tenho feito? Seguido em frente como uma flecha sem olhar pros lados, porque se eu for parar pra ficar vendo quem tá me pirateando, acabo desanimando.

  10. Opa, valeu pela indicação Alexandre, interessantíssimo!

    Mas sabe o que eu penso? Este negócio de deixar de fazer pensando que vai ser pirateado também não é uma alternativa: acaba piorando a situação e privando o consumidor final em detrimento dos que não merecem, não acha?

  11. Faltou mencionar esse argumento, que já vi muito por aí:

    “Ninguém tem direito de cobrar por uma IDEIA”

    :-(

  12. Este é um dos mais tristes. Normalmente vêm acompanhado de um dos mais imbecis também: “o conhecimento deveria ser livre e não deveriamos ter de pagar por ele”.

  13. É extremamente frustrante, mesmo, quando vemos isso acontecendo. Mas confesso que só me dei conta disso quando escreví meu primeiro livro.

    Durante a escrita do meu livro, lembrei que eu tinha um livro de Hadoop, no meu Kindle, que eu tinha baixado da internet. Me deu um remorso imenso de perceber isso e, no fim das contas, fiz questão de ir até a Amazon, achar o tal livro e pagar por ele (mesmo sabendo que eu não voltaria a lê-lo tão cedo).

  14. O grande drama é que há uma postura do tipo “por que não piratear se todo mundo pirateia”?

    O mais interessante é que o honesto normamente é tachado de otário.

  15. Pois é… estava lendo os comentários desse post e aí fui percebendo a que ponto chega a imbecilidade do ser humano.

  16. Quem fala uma estupidez dessa com certeza se esqueceu que nós também buscamos pelo conhecimento (que estava aberto) e simplesmente compilamos de um jeito mais fácil e mais rápido de ser absorvido =(

  17. Ou: HOJE no Facebook eu li um sujeito dizendo que discorda deste post por que o conhecimento tem de ser aberto e livre.

  18. Curiosamente o mesmo povo que pirateia sai às ruas gritando contra a corrupção.
    Interessante né? A coisa surge de baixo pra cima.

  19. Opa, bela recomendação, acabei de assistir e achei muito bacana. Valeu!

    É interessante mas se você olhar com mais atenção vai ver que não é dita muita coisa: o tempo inteiro é exposto que o mundo mudou, é mais fácil criar cópias que nunca e que a indústria do copyright foi pega de surpresa. Eu poderia até escrever um post sobre este filme.

    É interessante que não passa disto no final: “precisamos de um novo modelo econômico”. Obviamente nenhum é proposto :\

    Eu acredito nisto: num novo modelo econômico baseado em larga escala e preço baixo o suficiente que torne a pirataria coisa do passado por simplesmente não valer à pena.

    Agora, o grande problema é que mesmo com um preço bem baixo o problema persiste aqui no Brasil. Alternativas que no exterior funciona, como os botões de doação nunca vi funcionarem no Brasil (aliás, vou experimentar no /dev/Kico em breve). As pessoas simplesmente não ligam.

    Agora, sabe o que achei mais legal? Este filme é de 2009. Busque pelo que as pessoas entrevistadas no filme faziam hoje. Mininova, acabou (hoje é uma mera sombra do que era), free2air, acabou, aqueles músicos, não se ouve mais. Economicamente inviáveis. Infelizmente (ou felizmente) pra que a coisa dure tem de ser economicamente viável. :)

  20. Opa, observei mais um trecho neste filme que é bastante falacioso. Eles tentam provar que a pirataria na realidade é consequência do modo como o homem se comunica através da cópia.

    É bastante diferente: sim, nós aprendemos a nos comunicar a partir da cópia, tudo ok aí. O problema é que se esquece de levar em consideração de que um livro/música/filme antes de ser uma forma de comunicação é um produto, resultado do trabalho de alguém. Então, é bastante falacioso este argumento.

    Eu realmente gostei do filme, e se to postando estas coisas é porque me fez parar pra pensar a respeito, o que prova ser um excelente material. Novamente obrigado pela indicação!

  21. Olá Henrique!

    O que você acha em relação a empréstimo de livros? Eu já li dois livros físicos que foram emprestados de amigos, mas essa questão fica meio estranha quando estamos falando de e-books. Não posso mentir que já li livros digitais “emprestados” por amigos que pagaram por ele… Vi no FAQ da Casa do Código que os e-books não podem ser “emprestados”, mas a mesma regra não se aplica ao lívro físico. OK que um livro digital não é “emprestado” e sim dado, mas levando em conta que na maioria das vezes você não fica lendo um livro centenas de vezes (eu pelo menos não), o livro digital seria considerado um empréstimo assíncrono.

    Gostaria de saber sua opinião a respeito disso, sobre os empréstimos de livros digitais e até mesmo dos livros físicos.

  22. Quando você empresta um livro físico não gera problema algum para a indústria que o produz. Afinal de contas, é o mesmo livro. Alguém poderia dizer que o mesmo se aplica a livros digitais, só que há uma diferença básica. Quando você fala de livros digitais, o empréstimo equivale a cópia do mesmo um número infinito de vezes, o que fere o autor. Recentemente vi uma iniciativa muito interessante da Amazon que tenta resolver este problema (http://www.amazon.com/gp/feature.html?ie=UTF8&docId=1000739811), mas não sei se funciona.

    Alguém poderia dizer que o livro emprestado equivale a vendas a menos para o autor. É verdade, mas é um estrago ordens de magnitude menor (nem chega a ser um estrago).

  23. E quando os amigos envolvidos no empréstimo garantem que não vão compartilhar aquele arquivo com ninguém? Vou explicar, eu e mais um amigo temos um acordo para troca de conteúdo. Todo mês compramos 2 livros e combinamos que eles ficam somente entre a gente. Somos contra a pirataria também, e optamos por comprar nesse modelo para conseguirmos mais conteúdo custando menos, e mantendo um esquema mais próximo dos livros físicos possível, onde não tem danos extremos ao autor.

    Sei que ainda é pirataria, fico em mix de sentimentos, ruim em relação a ainda estar pirateando o conteúdo, mediano em pensar em pagar por algo que é próximo ao que teríamos com livros físicos.

  24. Esta eu acho uma solução mais interessante e justa para os dois lados.

    O problema é que sempre abre espaço para que o grupo de amigos cresça exponencialmente de tamanho. E o próximo passo é algo do tipo “sou amigo da humanidade” :)

    A questão digital é muito complicada: sinceramente, temo que com a “digitalização do mundo” o próprio conceito de posse como a conhecemos desapareça. É justo, por exemplo, você emprestar um livro que comprou para um amigo? Claro que é, mas quais são os limites de tal modo que o trabalho do autor não seja desvalorizado tal como costuma ocorrer?

  25. Há que se lembrar que compartilhar livros físicos é bastante limitante. Enquanto seu amigo está com o livro, vc fica sem.

    Chega a ser heroico o ato de manter os livros só entre vcs, e de topar compartilhar o livro para evitar pirataria. Tenho certeza que lhes dá a vontade de que cada um tivesse adquirido a sua própria cópia – e isso para o autor/editor não é nada mau. Alguém que pega um livro emprestado pode achá-lo útil tê-lo e adquiri-lo em seguida.

  26. Eu também não concordo 100% com o filme.
    A parte onde as meninas falam se se sentem bem porque não pagam por suas musicas é uma das piores.
    Mas talvez elas não paguem, porque são crianças não tenham renda e talvez quando virarem adultas pagem por elas.

    O que me incomoda é o #mimimi de que pirataria é do mal e etc.

    O cara que ‘pirateia’ um produto possui varias razões para fazer isso, mas mesmo esse cara, pode por exemplo, indicar o produto para outras pessoas, essas outras pessoas podem piratear da mesma forma que quem indicou, mas também podem agir diferente.

    Você falou que um livro/música/filme antes de ser uma forma de comunicação é um produto. Como um produto ele tem que ter mercado, etc.
    Se é impossível de viver com a pirataria no Brasil, não seria melhor mudar de mercado? Porque não criar conteúdo em inglês?

    Realmente não existe um modelo de negócios pronto, e acredito que cada produto tem que encontrar a melhor forma de se beneficiar com a ‘pirataria’.

    Vou deixar algumas perguntas:

    O que seria pirataria para você?

    Será que o mundo seria um lugar melhor se não houvesse ‘pirataria’?

  27. Excelentes perguntas: adoro estes posts no blog que me fazem repensar o que escrevi originalmente. Obrigado por isto!

    Bom: o que é pirataria pra mim: basicamente a cópia ilegal que prejudica o autor/fornecedor. Há alternativas para isto? Com certeza, eu inclusive estou pensando em algumas bastante interessantes para um projeto futuro.
    A pirataria pode ajudar o produtor? Pode, mas em que escala? Ela pode ser usada para divulgar o trabalho do autor, por exemplo. No entanto, como fica a situação quando a pessoa quer viver diretamente da produção daquele bem, e não de efeitos indiretos? Te respondo com esta pergunta.

    O mundo seria um lugar melhor se não houvesse pirataria? Com certeza.
    Um mundo sem pirataria implicaria em um mundo no qual esta fosse desnecessária ou que não valesse à pena, ou seja, que o preço fosse suficientemente baixo de tal modo que não a justificasse. Problema: para chegar a este ponto, é fundamental que haja contra-partida a partir dos consumidores.

    Por que não produzir conteúdo em inglês portanto né? Duas respostas: sim e não.
    Sim: já comecei a produzir conteúdo em inglês (http://www.itexto.com.br/devkico/en)
    Não: meu foco é Brasil. Quero melhorar as coisas por aqui primeiro. Sou um destes malucos que realmente quer ver as coisas melhores por aqui. Por isto insisto tanto em dar mais foco na minha produção nacional do que na estrangeira.
    Há planos de que eu venha a escrever um livro em inglês? Pode apostar, e inclusive já está em execução.
    É o foco? Não: acredito no Brasil e que gerando mais material para nós a coisa melhore. Sei que minha contribuição é ínfima, mas se mais gente agir como eu, acredito que não se torne tão ínfima assim.

  28. estou a lembrar do que o Federico Pistono fez com o livro dele “Robots Will Steal Your Job, But That’s OK” ( http://www.robotswillstealyourjob.com ) – usou crowdfunding para escrever, meteu à venda no Amazon e outros sites, e prometeu (e progressivamente vai cumprindo capítulo a capítulo ) disponibilizar o conteúdo digital livremente à medida que o livro for sendo vendido, já que a preocupação dele é mais fazer com que o máximo de pessoas leia o livro do que propriamente o venda (a licença do livro acho que é cc-nc-sa, acho) – que acham de ideias como esta?

  29. na minha opinião, em relação ao que o Rodrigo diz da “estimulação a produção de conteúdo nacional”, acho que o circuito independente, e principalmente os autores independentes, é que deveriam ser estimulados, e não as livreiras, que não fazem mais do que “chular” (explorar) os escritores e os leitores, com a desculpa da “distribuição” e afins. O mesmo se aplica aos conteúdos com drm (que são um atentado aos direitos básicos dos consumidores), que acho que para além de boicotados, não deveriam ser divulgados.

  30. Acho que há também aquela questão, se uma pessoa se sente incomodada a ter de pagar por um jogo, pode muito bem não usá-los nem pagá-los, e ajudar no desenvolvimento de um jogo software-livre colaborativamente, e estar a “pagar” com o desenvolvimento ao invés de guito. E acho que não é por isto que os jogos (os livres) deixam de ter qualidades, e os jogos do Kenta Cho são um bom exemplo disto, e até estão disponíveis nos repositórios do Ubuntu e do Debian, com o código fonte adaptado para Linux e tudo. Acho que é mais uma questão de postura, que depende de pessoa para pessoa. O mesmo acho que se aplica a livros e documentação, é aquela questão de que se vale a pena comprar um livro quando há equivalentes como documentação livre, e se vale a pena contribuir financeiramente com o trabalho de um escritor específico mais diretamente, com aquela preocupação de que se são os livreiros e distribuidores que merecem mais esta contribuição do que os escritores, que é o que acontece no circuito atual das livrarias comerciais e afins.

  31. a melhor definição de pirataria que encontrei até agora foi esta: “Publishers often refer to copying they don’t approve of as “piracy.” In this way, they imply that it is ethically equivalent to attacking ships on the high seas, kidnapping and murdering the people on them. Based on such propaganda, they have procured laws in most of the world to forbid copying in most (or sometimes all) circumstances. (They are still pressuring to make these prohibitions more complete.) – If you don’t believe that copying not approved by the publisher is just like kidnapping and murder, you might prefer not to use the word “piracy” to describe it. Neutral terms such as “unauthorized copying” (or “prohibited copying” for the situation where it is illegal) are available for use instead. Some of us might even prefer to use a positive term such as “sharing information with your neighbor.”” ( http://www.gnu.org/philosophy/words-to-avoid.html#Piracy )

  32. Paulo, a coisa não é tão simples assim: livrarias e editoras não podem ser vistas como meros exploradores dos autores, mas sim como parceiros.

    Veja da seguinte forma: o trabalho do autor é criar, o da editora/livraria fazer o que normalmente não é especialidade do produtor: vender e ajudar nisto.

  33. Esta é uma idéia interessantíssima. Crowd sourcing está começando a pegar e é uma alternativa que está se tornando cada vez mais viável.

  34. Paulo, interessante a crítica à metáfora.
    Mas aí eu poderia simplesmente não usar uma metáfora e usar a crítica à cópia ilegal. Continuaria na mesma, não?

  35. De Nada, eu adoro discutir sobre esses assuntos e principalmente contribuir. Eu também estou aprendendo muito. Por exemplo fui pesquisar sobre a definição do termo pirataria, e nossa como existem definições, algumas bem toscas e desatualizas.

    Kico você já pensou em criar uma área virtual (site) com conteúdo exclusivo para quem comprou os livros? Com posts mais avançados ou mais detalhados. Você poderia por exemplo utilizar o identificador único da comprar para o cara criar um login por exemplo.
    Você já pensou em criar uma pagina de agradecimentos com o nome de todas as pessoas que já compraram o livro? Muitas pessoas gostam disso.
    Você já tentou utilizar o crowdfunding para conseguir recursos antes mesmo de ter todo o material pronto?
    Uma coisa que me incomoda muito no atual mercado é que eu não faço a mínima ideia se o preço do produto faz sentido na hora da compra, muitas vezes eu termino de consumir o conteúdo e fico com vontade de pagar mais, ou a vezes de pedir meu dinheiro de volta. Acredito que todo livro deveria ter nos últimos capítulos algum texto explicado melhor o processo de criação (bastidores) e como os leitores poderia ajudar ainda mais.

    ‘No entanto, como fica a situação quando a pessoa quer viver diretamente da produção daquele bem, e não de efeitos indiretos?’ Acredito que o problema seja porque o seu publico seja muito especifico. A quantidade de devs no Brasil é até significativa mas é muito fragmentada em tecnologias e plataformas. Se você quiser viver disso recomendaria criar conteúdos mais teóricos e genéricos que não ficassem desatualizados com o tempo.

    No meu mundo ideal as pessoas pagariam por um produto/serviço o quanto elas acreditassem que fosse o valor para aquilo. Assim ricos e pobres poderiam consumir os mesmo tipo de conteúdo sem nenhuma restrição. Em algumas aldeias isso já acontece, mas aqui no Brasil ainda vai demorar um bocadinho.
    Também sou um desses Brasileiros loucos que acreditam e que um Brasil melhor.

    Uma curiosidade Kico é que acompanho o seu blog a algum tempo, mas só consumo os conteúdos não técnicos, pois as tecnologias que você aborda não me interessam tanto.

  36. Opa,
    já pensei em todas estas coisas e inclusive algumas devem se concretizar em muito breve (é altíssima a possibilidade da itexto mudar seu rumo para o setor “mídia”).
    Sobre os agradecimentos, eu levo isto muito a sério, e prova disto é que logo no início do livro do Spring eu agradeço alguns leitores que me ajudaram durante o período de beta, mas a idéia de levar isto um pouco além sabia que é excelente?

    Crowdfunding: to avaliando para um projeto menor que devo lançar em muito breve.

    A questão do expor o trabalho que levou ao livro também é muito interessante. É bastante comum nas ciências humanas incluir um capítulo sobre metodologia que é justamente isto. No meu próximo trabalho independente com certeza isto entraria. O problema é que muita gente na realidade não quer um livro: quer um tutorial, e devo te confessar que tenho um “certo” nojo disto.

    Sobre o preço do produto, é de longe o mais complicado. Se for pensar do ponto de vista lucro real, horas trabalhadas x ganho, normalmente não há lucro. O trabalho é monstro demais pro ganho obtido.

    Outra curiosidade: de uns anos pra cá tenho curtido mais escrever sobre coisas “não técnicas”. Bom saber que tá dando resultado :)

  37. Opa vou aguardar por esses conteúdos.
    Qualquer coisa estamos aqui para ajudar.

  38. Oi Kico, uma coisa é um amigo emprestar um livro, outra é por a venda…

    Acho que o modelo está falido, principalmente para musicas, Eu pagaria R$10,00 por mes pro resto da vida pra poder baixar legalmente a musica e não compro um cd por ano… livros, primeiro vejo no sebo, geralmente por 1/3 do preço… mas os livros do Kico não tem no sebo :-) nem o 7° de crônicas saxônicas…

    Poderia disponibilizar o pdf de graça, mas vender propaganda em todas as páginas…

  39. Sabe que você tem razão?

    Eu estou pensando muito nisto últimamente. Vai soar falso a confissão que vou fazer, mas que se dane :) .
    No início eu queria que tudo que eu fizesse fosse disponibilizado de graça (a itexto surgiu justamente assim em 1999), mas o tempo passa, as contas aumentam, você sai da casa dos pais e de repente parece que se torna impossível fazer isto.

    Mas eu ainda creio neste modelo gratuito: só to buscando uma forma de poder viabilizar a coisa.
    Propaganda, por exemplo: é tanta gente que eu mandaria à merda só por me propor colocar seu logotipo em algo meu que penso que talvez inviabilizasse.

    Bom: pelo menos eu tenho este blog com conteúdo gratuito (que sempre será) né? Já é um começo.

  40. Bom, eu concordo e discordo. Quando se trata de pirataria, pensa-se sempre no lado negativo, criminoso. Tanto até pelo nome do ato fazendo alusão aos corsários do passado.

    É claro que o artista/criador não só merece, como DEVE ganhar pelo seu trabalho. Afinal, essas produções são tão importantes para a cultura/sociedade que sem elas, ficaríamos a mercê de uma idade medieval do pensamento.

    Mas ainda há outras questões antes da pirataria que devem também ser discutidas.
    -O caráter social e a cultura totalmente desalinhada do brasileiro (mas não exclusividade nossa); Desonestidade; ditados do tipo: o mundo é dos espertos; etc.
    É muita cara de pau (desonestidade/hipocrisia) o indivíduo que possui dinheiro para comprar uma obra, mas recorre a pirataria.

    Contudo, há um lado social na pirataria.
    E aqueles que não possuem dinheiro para comprar? Não poderão eles consumir aquilo que uma “elite” consome?
    Ficarão sempre em desvantagem em relação aos outros que possuem meios (entenda-se dinheiro) para obter uma cultura mais refinada?

    Já somos vítimas no Brasil de uma parca educação pública, de uma ignorante distribuição de recursos (recursos, não renda!). E isso mantém esse abismo social gigantesco, separando aqueles que “nasceram” para o crime/trabalho operário/mendigagem daqueles com acesso aos melhores empregos dado as melhores formações.
    Nesse aspecto, a pirataria de livros tem um efeito social benéfico, reduzindo o número daqueles com “destinos” traçados pela condição social. Dá-se oportunidades iguais (ou quase, mas diminui a desvantagem).

    Queria dizer que, antes de tudo, não sou contra nem a favor, muito pelo contrário! :D

    Espero que entenda meu ponto de vista.

    E concordo com o Everton Sales. Esse sistema está falido.
    Vc por exemplo, poderia ter a chance não de comprar um livro, mas alugá-lo, até que termine de ler. Um Spotify dos livros. Vc paga uma mensalidade ou uma pequena taxa e terminado a leitura, o livro é deletado.
    Isso se consegue por meio de softwares de DRM, impedindo inclusive a cópia. E para escolas públicas ou bibliotecas, os alunos teriam acesso ao acervo gratuitamente para estudos, através de acordos com a prefeitura ou liberação do autor para crianças carentes (ou aditora). Novamente, o DRM impediria a cópia.
    Enfim, sou contra o DRM. Mas a busca deve ser um modelo melhor do que os existentes. E livros digitais, deveriam ser baratos. Afinal, vc não tem custos com papel, impressão, distribuição, etc.
    Assim, ganha-se dinheiro pelo volume de vendas, e não pelo preço absurdo cobrado que, convenhamos, só afasta ainda mais o brasileiro da leitura.

  41. Oi Ricardo,

    sinceramente não consigo concordar com a idéia de que a pirataria é algo bom socialmente como você expõe. Ele esconde uma possibilidade nefasta: a de que se você não tem dinheiro para comprar algo e se julga merecedor pode simplesmente ir lá e pegar, o que é muito perigoso.

    No entanto, no que eu não acredito é na solução do tipo “one size fits all”. Quer ver um exemplo interessante? Você pode ver o seu trabalho lançado em mais de uma edição, por que não? Uma popular, uma mediana e uma de luxo. É uma alternativa, não acha?

    E outra: se não tem dinheiro para ter acesso à coisa, será que não seria mais interessnate simplesmente pedir ao autor ao invés de já chegar roubando?

    Conhecimento é algo que deve ser difundido e todos devem ter acesso? Sure!
    Mas será que incentivo pra quem o produz também não é igualmente importante?

  42. E é aí que eu discordo do seu ponto de vista também, Ricardo!

    Não vou negar que já pirateei muito, já baixei diversos ebooks, já compartilhei muito contéudo pirata com amigos.

    Hoje em dia não faço mais, cheguei ao um ponto onde ponderei muito a questão e notei que vale sim a pena pagar por um produto.

    O problema é que o brasileiro não pensa antes de fazer as coisas. A cerveja aumentou, mas o consumo continua aumentando e, independente do preço que for, o povo vai continuar comprando!

    Tem gente que não abre mão da cerveja do final semana, nem que fosse somente por UM ÚNICO final de semana, pra investir em algo que traria frutos em longo prazo.

    Temos a visão micro, quando deveria ser macro. Ninguém tem a paciência(e é só paciência mesmo, porque tempo a gente sempre consegue) de sentar e planejar o futuro, se planejar pra economizar e comprar aquele produto caro e desejado original.

    Se o Henrique me permite, gostaria de deixar esse link: http://www.mundogump.com.br/taxas-malucas-por-que-que-a-gente-e-assim/

    Deixando a pirataria de lado, leia esse texto e veja como é custoso registrar um livro no ISBN, ou requerer Direito Autoral ou Intelectual de uma criação sua. São valores absurdos e proibitivos! Depois aparece no Jornal Nacional a manchete de que o Brasil está em último nos índices de inovação cultural e tecnológica! E porque? Porque mesmo sem pirataria já é um abuso o que se cobra em cima de quem cria…

    Com pirataria então não precisa nem falar né? ;-)

    Um exemplo bem prático: o mercado de CD’s. As vendas de discos caíram demais! Hoje não se vende 10% do que se vendia há 15 anos, por exemplo. E mesmo assim os preços continuam exorbitantes!

    Eu poderia explanar 300 motivos pra isso, mas o motivo mais agravante pra isso é a pirataria. Que diferença faz eu baixar o preço do novo disco da minha banda de 40 pra 15 reais, se o povo vai continuar baixando ele pela Internet mesmo?

    É uma questão bem complicado, os fatos sociais indicados pelo Ricardo são muito válidos, de maneira alguma desmereço a argumentação dele. Mas eu fui criado aprendendo que pra roubar não existe motivo coerente. Roubo de galinha ou do Banco Central é roubo, o ato é o mesmo…

    Abraços! :)

  43. Não é fácil ser independente, mas acredito que você terá mais liberdade e o conhecimento pode ser melhor propagado. Na indústria do entretenimento eu vejo que a qualidade diminui por se ter que criar um produto apenas para agradar, mesmo que não se tenha qualidade. Sem generalizar é claro. No caso da música eu curto mais bandas independentes, pelo motivo que expliquei acima.

    Eu imagino um mundo em que dinheiro não seja problema e que as pessoas possam ser livres, ter mais tempo livre e fazer tudo o que gostam, como por exemplo escrever um livro.

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