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O que muda no Spring 4.0?

thumb_beta_spring_largeComo escrevi um livro sobre o Spring Framework, não é raro que eu receba perguntas pelas redes sociais a respeito da versão 4.0. Meu livro ainda trata da versão 3.2, então aquilo que disse nele ainda é válido? Resposta rápida: em 100% dos casos, sim.

As mudanças superficiais no Spring são raras: se seu projeto é baseado na versão 3.2 do framework, a migração para o 4.0 é muito tranquila. Só é necessário alterar as dependências do seu projeto para a nova versão na esmagadora maioria das vezes. Neste post irei falar sobre as mudanças que considero serem as mais importantes.

(não sabe o que é o Spring Framework? Eu tenho um guia gratuito que pode te ajudar. Clique aqui!)

Pivotal entra em cena

Este é o primeiro grande release do Spring sob a supervisão da Pivotal. Se havia receio a respeito da competência desta nova empresa, este se transformou em alegria, pois o trabalho que fizeram foi simplesmente fantástico!

Um dos principais objetivos da empresa foi melhorar a experiência de início de projeto com o Spring, então reformularam completamente o site oficial (http://www.spring.io) . As mudanças vão muito além do layout: incluíram uma série de guias que ajudam os desenvolvedores a iniciarem da maneira mais rápida possível seus projetos baseados tanto no Spring como também nas tecnologias baseadas neste framework.

Os guias são muito diretos: fáceis de ler e sem rodeios. Precisa implementar um servidor REST? Quer usar o GORM? Quer começar algo? É enorme a possibilidade de haver um guia pronto para que você possa por a mão na massa rápido. Vale muito à pena conferir os guias: http://spring.io/guides. Além disto em cada subprojeto há um guia que te mostra o básico da tecnologia em questão.

Rejuvenescendo o Spring

Classes, métodos e pacotes marcados como obsoletos

Conforme o tempo passa todo projeto começa a sofrer com seu código legado. O pessoal da Pivotal então tomou uma decisão corajosa: marcou como obsoletas diversas classes, métodos e pacotes que compunham o código fonte do Spring. Você pode ver a lista completa neste link. Se seu projeto usa classes internas do framework (o que é uma péssima prática em qualquer framework), então algumas classes vão ter de ser substituídas em sua aplicação (você foi avisado!).

Do 3.2 para o 4.0 seu projeto funcionará perfeitamente, mas a partir da versão 4.1 é bem provável que diversas destas classes não venham mais com o framework.  Em um primeiro momento soa desagradável esta remoção em massa, mas na prática é vital para garantir a longevidade do projeto. Menos código legado leva a um custo menor de manutenção e possibilita um foco maior na inclusão de recursos realmente importantes para o desenvolvimento de novos projetos e para atender necessidades que estão surgindo.

Olhando para a frente: suporte total ao Java 8, Java EE 6 e 7

O Spring 4.0 foi lançado antes do Java 8 e já vinha com suporte total à nova versão da linguagem. Um ponto importante é que agora a versão mínima do Java é a 6.0: natural dado que o Java 5 já tem 10 anos (saiu em 2004). Você já pode tirar proveito de recursos como lambdas, referências a métodos, suporte total à nova API de tempo (java.time).

Do lado Java EE é importante mencionar que agora a versão mínima da especificação será a seis. Muitas dependências de terceiros (3rd party dependences) também sofreram com isto. A partir da versão 4.0 do Spring  estas devem ter sido desenvolvidas a partir de 2010. Exemplos interessantes: Hibernate 3.6+, EhCache 2.1+ e Groovy 1.8+.

O objetivo disto tudo é claro: estas medidas nos deram mais uns vinte anos de Spring (no mínimo) pois o custo de manutenção de tecnologias legadas daqui pra frente foi significativamente reduzido.

Groovy cada vez mais presente

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Este é um ponto que muito me alegra: Groovy está muito mais presente no Spring 4.0. Nós que programamos em Grails já usamos a linguagem para declarar nossos beans (nos raríssimos casos em que isto é necessário) desde a versão 0.x do framework. É uma DSL bastante prática mas que até então estava disponível apenas para desenvolvedores Grails.

Agora qualquer um pode usar esta DSL: você não precisa mais do Grails para declarar seus beans em Groovy. È possível fazer isto em projetos Java de forma bastante tranquila graças à inclusão da Groovy Bean Definition Language.

Aqui faço uma aposta: a Pivotal percebe o valor do Grails. Prevejo cada vez mais recursos do Grails aparecerem no core do Spring Framework. Na versão 4.1 já está inclusive previsto o suporte a templates Groovy no Spring MVC.

Mudanças no container de injeção de dependências e inversão de controle

Foram incluídos alguns novos recursos que considero bastante interessantes. O primeiro deles diz respeito à anotação @Lazy. Até a versão 3.2 do framework nós apenas a aplicávamos na definição de beans, fazendo com que estes só fossem iniciados quando necessários. Agora ela vai além: podemos aplicá-la também em pontos de injeção!

A outra mudança interessante é que agora podemos usar generics como qualificadores de nossos beans. Abaixo está um exemplo que copiei direto da documentação oficial para ilustrar o seu uso:


@Autowired
private Store<String>  storeString;

@Autowired
private Store<Integer> storeInteger;

Em algumas raras situações é bastante prático.

Spring MVC com suporte a WebSocket!

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Uma adição que justifica o upgrade. Agora o Spring oferece suporte nativo à tecnologia WebSocket e, claro: da maneira Spring, ou seja, é fácil de usar! Mais do que isto, eles também oferecem suporte a SockJS, que é uma tecnologia de fallback que permite simular websockets em navegadores mais antigos.

E o melhor deixei pro fim: Spring Boot

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O Spring Boot não é um componente do Spring, mas sim um projeto independente. A idéia é tornar a criação de projetos baseados em Spring muito mais ágil, fácil, desburocratizada, leve e foda. E eles conseguem.

O foco principal por trás da versão 4.0 é tornar o desenvolvimento com Spring ainda mais rápido. O Boot nos possibilita isto ao trazer para o framework o conceito de “convenção sobre configuração”. Na documentação oficial do projeto você verá diversas vezes  “opinionated view”, mas no fundo o que querem dizer é “convenção sobre configuração” (COC).

O que é COC: para a maior parte das suas tarefas, a configuração é essencialmente a mesma. Então por que obrigar o programador a se repetir? O Boot trás uma série de configurações pré-prontas para você: se precisar de algo mais customizado, basta sobrescrevê-las. Diversos requisitos não funcionais já vêm pré-configurados no Boot, e isto irá te poupar muito tempo.

Mais do que isto, o Spring Boot facilita o desenvolvimento de micro serviços (já escrevi sobre esta arquitetura aqui e aqui) e muda bastante a visão que temos sobre o desenvolvimento Java EE. Pra começar, o servidor é embarcado por default, então você executa sua aplicação com o comando java -jar (também é possível gerar um war se você quiser).

E o tempo que você leva para iniciar um projeto Spring Boot? Apenas o de copiar e colar os trechos de código Maven presentes no site do projeto no seu arquivo pom.xml. E sabem de outra coisa? Este será o único XML que você usará em seu projeto (e já era assim na versão 3.2). Um dos objetivos do boot é acabar com o mito de que gastamos muito tempo com arquivos XML no Spring.

Infelizmente este post é pequeno demais para que eu possa falar mais a respeito do Boot. MInha sugestão é que você passeie pelo site oficial do projeto primeiro.

(sem exagero: na minha opinião este projeto muda radicalmente nossa visão sobre desenvolvimento de aplicações corporativas na plataforma Java)

Concluindo

Apesar das mudanças, o Spring 4.0 ainda é usado exatamente como estamos acostumados na versão 3.x. Há novos recursos, como a DSL em Groovy para declarar beans, mas tirando isto, tudo o que lhes falei no livro ainda é válido e não precisa ser alterado (se leu o livro e encontrou pontos que precisam ser alterados, entre em contato comigo, ok?).

O que fica claro lendo a documentação e diversos posts na Internet é que a Pivotal conseguiu rejuvenescer o Spring: e muito! Quando escrevi o livro muita gente não via vantagem em usar o framework dados os avanços do Java EE 7. Hoje com certeza o Spring está de novo na vanguarda: mais leve, tão simples como antes e surgindo projetos cada vez mais interessantes como o Spring Boot, Spring Data, Spring XD e tantos outros.

Estas foram as novidades do Spring 4 que mais me chamaram a atenção. E sabem o que acho mais bonito? Exatamente pelo fato do projeto sempre ter ser baseado apenas nos conceitos de Inversão de Controle, Injeção de Dependências e AOP permitiram que este evoluísse sem que com isto seus usuários necessitassem reaprender o framework em sua nova versão.

O framework evoluiu, mas você que conhece os conceitos (e torço para que tenha lido meu livro :)) não ficou obsoleto com isto: apenas ganhou alguns novos brinquedos para aplicar em seus projetos. ;)

PS:

já está planejada a atualização do “Vire o Jogo com Spring”. Se você comprou pela Casa do Código, receberá atualizações automaticamente. Então dá pra comprar agora e garantir sua atualização em um futuro bem próximo. :)

9 thoughts on “O que muda no Spring 4.0?

  1. Legal as novidades do Spring 4 Kiko. Desde que conheci o Spring Boot estou facinado com sua simplicidade e poder, é uma revolução na programação Java pra web! Fantástico… abs.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Eu também viu José Alexandre, e te digo mias: ele é o prelúdio para o fim do servidor de aplicações tal como o conhecemos hoje.

    Aliás, este é um assunto que pretendo abordar neste blog em muito breve. :)

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  2. Esses dias estava lendo a respeito do Spring Boot, parece mesmo interessante. Brinquei um pouco com ele e é mesmo rápido e de simples configuração.
    Tem uma novidade em relação a REST, um nova anotação para isso. @RestController que substitui a @Controller em classes para seriços REST e que exclui a necessidade da anotação @BodyReponse nos métodos.

    Estou no aguardo da atualização do seu livro, tenho certeza que será interessante.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Oi Ballem, legal ler isto, espero que goste quando sair, valeu. :)

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  3. E aí Kico, tudo bem?
    Eu acho que eles dizem muito “Opinionated view” porque as “configurações de fábrica” (as “convenções”) são, de certa forma, escolhas tendenciosas (eles têm seus motivos técnicos e não técnicos). Por ex., nos “Starter POMs”, quando **nenhuma** configuração adicional é feita, automaticamente é escolhido o ‘LogBack’ para logging (mesmo que tenha suporte para ‘Java Util Logging’ e ‘Log4J’). E, apesar de eu concordar com essa escolha, ela continua sendo tendenciosa justamente porque se baseia em uma opinião que é deles.
    Aliás, o Spring Boot é uma mão na roda para muitos (iniciantes, principalmente) exatamente porque muitas escolhas já foram tomadas e, a não ser que queira mudar, não é necessário fazer praticamente nada. E isso vai bastante além daquilo que é tradicionalmente chamado de “Convention Over Configuration”. O “opinionated view” é uma forma de dizer, logo de cara, que eles tiveram que fazer algumas escolhas (polêmicas, às vezes) entre as opções existentes.
    Apesar de não ser fã do Spring Boot, acho que muita gente que está começando com Spring vai se beneficiar bastante.

    Gerson K. M.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Oi Gerson, muito boa esta sua interpretação. Não havia pensado por este lado, e você está absolutamente correto!
    Obrigado por compartilhar sua opinião, valeu!

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    Gerson K. Motoyama Reply:

    Cheguei no seu blog através do “This Week in Spring – August 5th, 2014″. Além disso, há um tempo, um amigo do trabalho comentou que estava lendo o livro “Vire o jogo com Spring Framework”. Não li o livro, mas o pouco que ele me mostrou me pareceu bem bacana por mostrar como foi o surgimento do Spring, todos os conceitos envolvidos (IoC/DI, AOP, etc.), os problemas que tínhamos com EJB 2.x, e tudo mais. Achei tudo isso excelente pois na equipe em que trabalho a maioria sabe muito pouco inglês (o que dificulta o acesso a bons materiais como “Spring Framework Reference Documentation” e livros como o “Expert One-on-One J2EE Development without EJB” e “Professional Java Development with the Spring Framework”, ambos do Rod Johnson), sendo que trabalhamos muito com Spring (usamos praticamente tudo). Encontrar um material legal, que ensina os bons fundamentos, e ainda no idioma português, foi um grande achado! Vai ajudar bastante a nossa equipe. Já recomendei a todos. Valeu!

    Gerson K. M.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    É muito bacana saber disto Gerson: é um imenso incentivo para mim. Valeu!

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  4. Sinto muita falta em ler sobre OAuth2 com anotação e autenticação por tabela de banco de dados e inclusive por redes sociais. Fica a dica, se incluir isso na sua atualização me avisa que quero comprar.

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