Eu e o empreendedorismo do palco

Em janeiro de 2015 Nanna e eu oficializamos a itexto: foi um dos momentos mais legais da minha vida pois um sonho (O sonho) muito antigo finalmente estava se concretizando. Setembro de 2016 está chegando e de lá pra cá já atendemos quase 30 clientes, formamos uma quantidade enorme de pessoas nas tecnologias que dominamos e as coisas caminham bem.

Caminham bem agora, após 16 anos de incontáveis tentativas, a esmagadora maioria fracassada devido à minha arrogância e ignorância. No meio do caminho decidi reduzir minha ignorância partindo para o mercado e buscando trabalhar com aqueles que fossem mais experientes que eu. Venci a arrogância ao reconhecer que pra comandar meu destino primeiro tenho de ter sido comandado.

Este investimento se pagou: observando os erros alheios (sempre os mesmos) pude chegar a algumas teorias que, finalmente, ao colocar em prática se confirmaram e o negócio começou a caminhar, o que se confirma no crescimento (muito) controlado da empresa em um período de crise econômica profunda do país.

E aí você achou que este seria mais um texto motivacional daqueles que geram uma vergonha alheia profunda né?

Esta “vibe empreendedora” me incomoda

(odeio a palavra “vibe”, mas foi a melhor que encontrei no momento, desculpe)

Vejo muito papo furado em apresentações sobre empreendedorismo, startups e cia. Como alguém que tem uma empresa de verdade, pagando salários e impostos reais, resolvi listar aqui parte das lorotas que dizem.

A ausência de uma palavrinha chave que começa com “R”

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Sabe: quando assisto a algum picareta no palco falando sobre sua “trajetória de sucesso” ou mesmo aqueles caras que claramente nunca abriram seu próprio negócio te dizendo como proceder raramente vejo uma palavra ser dita: responsabilidade.

Ok, você quer abrir seu negócio. Você sonha se tornar alguém que criou algo importante, mas já parou pra pensar na imensa responsabilidade que é ter seu próprio negócio?

Já parou pra pensar na honra que é alguém querer trabalhar contigo? Honra esta que não pode se tornar uma decepção. No compromisso que é mensalmente pagar todos os impostos envolvidos no pagamento de salário desta(s) pessoa(s)? Já se atinou pro fato que você pode fuder a vida de quem trabalha com você?

Se só tem sócios na sua empresa, será que sua empresa terá estrutura para ter pessoas recebendo no regime legal, que é o CLT?  Desculpe: você só sabe o que é ter uma empresa quando assinar a primeira carteira de trabalho de alguém.

E a responsabilidade que é alguém te escolher como fornecedor? Te escolheram, confiaram em ti e no seu serviço/produto: agora vai ter de corresponder.

Agora vamos para um nível acima: já parou pra pensar que ao abrir uma empresa você está influenciando a sua economia local? Que se seu negócio for pura lorota, você pode desacreditar todo um ramo?

Quase sempre a mesma historinha!

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Releia os três primeiros parágrafos deste post. É inacreditável como sempre escuto nas apresentações a mesma história composta por três atos.

  1. O empreendedor tem uma ideia que considera genial, mas ele é arrogante devido à sua própria ignorância. Ele segue em frente.
  2. Aparece um obstáculo e nosso herói sofre um forte baque. É o momento em que sua ideia é posta em cheque. Será que ele consegue vencer o obstáculo?
  3. Ele aprendeu com os erros, adaptou-se, adquiriu humildade: agora está mais sábio e tudo deu certo.

Há uma outra variação cruel desta mesma história. Segue abaixo:

  1. O empreendedor tem uma ideia que todos consideram idiota, mas ele tem e segue em frente.
  2. Ninguém acredita em nosso herói, mas ele continua. É o período tenso, no qual sua fé é testada.
  3. De repente sua ideia começa a funcionar! Todos percebem que estavam errados e não o herói, mas o mundo percebe que era arrogante e se redime.

Percebeu que há uma forma compartilhada?

  1. Nascimento da ideia – herói empolgado
  2. Momento da dificuldade – herói se questiona
  3. Dificuldade superada, sucesso atingido – herói confirma sua ideia (mesmo que a adapte)

Você realmente acredita que o mundo é tão simples assim??? Não são expostos muitos detalhes a respeito dos passos reais envolvidos no problema. É como Vitor Hugo, que dizia ter escrito Les Miserables de uma única vez. Anos após sua morte encontraram um baú com inúmeros manuscritos.

Resumindo: sempre o mesmo conto de fadas, a realidade é mais interessante (e árdua) que isto.

(aliás, este é o arquétipo mais básico do herói presente na literatura ocidental)

A ideia de que basta ter uma ideia e um… app

Claro, sou um desenvolvedor, quero trabalhar e tal, então não deveria dizer isto, mas é tanta gente iludida com a ideia de que para ser um empreendedor de sucesso você só precisa de um aplicativo e uma ideia…

E os caras falam isto no palco!!!

“Kico, se tivermos um app como o Krankster ficaremos ricos!” – Yeah! Nem precisamos pensar nas pessoas que cuidarão dos fornecedores, contato com clientes, manutenção, suporte, o computador resolve tudo pra nós!!! O Processo é o sistema!

“Nada pode dar errado!” (copyright)

A venda de uma vida sem sentido

O indivíduo é seduzido pela ideia de ter um negócio próprio, investe horrores na construção da infraestrutura necessária e começa a ver a coisa tomando forma.

Então chega uma pessoa e lhe pergunta: uma vez aberta sua empresa, como será seu dia a dia?

 

 

 

 

Um silêncio profundo dominará a conversa.

 

 

 

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Sério, já parou pra pensar nisto? Uma das razões pelas quais oficializamos a itexto foi nosso desejo de desempenhar um conjunto de atividades diárias no trabalho. Se você não sabe como será o seu operacional básico, pra quê abrir uma empresa?

Já parou pra pensar que uma vez aberto o negócio, você passará um bom tempo nele fazendo alguma coisa? Será que descobrir o que é esta “alguma coisa” depois é uma atitude inteligente?

A venda de uma realidade gringa

Arde: te mostram um modelo de negócio maravilhoso, aquela estratégia genial que funciona extremamente bem… na Europa e Estados Unidos.

São casos envolvendo ideias pouco convencionais no primeiro momento como Twitter (quem poderia imaginar: 144 caracteres!), Facebook, Apple (quem imaginaria um computador em casa?), Microsoft (os caras largaram a faculdade!) e por aí vai.

Mas não mencionam que lá existe uma cultura empreendedora centenária, uma economia brutalmente competente, um governo que não te sufoca com impostos, etc. Não mencionam que é um ambiente no qual você tem fôlego para falhar.

Sério: criar rede social no Brasil? Nossos problemas  são outros! Cansei de ver consultores ou investidores apresentando modelos gringos aqui.

E sinceramente, desconfio que o modelo de startup no Brasil é fadado ao fracasso por ser vendido, em sua maioria, baseado em ideias estrangeiras muito mal adaptadas à nossa realidade (basta pensar um pouquinho no próprio termo “startup”).

Gente que te ensina a abrir uma empresa e cuja própria empresa é… ensinar pessoas a abrir a própria empresa.

Meus comentários são desnecessários aqui.

(aliás, já escrevi a respeito)

As fórmulas prontas

“X passos para o sucesso”, “N oportunidades para ficar milionário em 2017”, “as Z coisas que pessoas de sucesso fazem todo dia”

Sério que as pessoas acreditam que a realidade é tão simples assim?

Levando em consideração a quantidade de leitores destes livros de “auto-ajuda para empreendedores”, era para estar pipocando milionários. Cadê eles?

Uma infantilização extrema

Por favor, faça o seguinte exercício: acesse o YouTube e busque por vídeos apresentando startups. É grande a possibilidade de você ver o seguinte:

  • Uma animação cartunesca
  • No fundo musical vai ter um banjo (99,99% de chance! Se não tiver banjo, tem pandeiro!)
  • Todas as pessoas sorriem por que todo mundo é divertido e o mundo colorido!

Talvez soe ranzinza mas… quem quer investir em uma empresa dirigida por pessoas assim? Oh: desculpe, talvez eu esteja com inveja por não fazer parte do grupo das pessoas legais… (percebo que não faço, sinto alívio!)

Esta infantilização se manifesta de forma clara quando observamos o uso repetido ao extremo da imagem do jovem prodígio.

Na realidade a infantilização nada mais é que a exploração da carência presente em cada um de nós (e sobre isto ainda escrevo um texto).

Então empreender é ruim?

Claro que não: o que quero mostrar neste texto é que abrir uma empresa não é algo simples ou fácil como este povinho picareta diz nos palcos. Empreender é algo sério e deveria ser um ato virtuoso, mas infelizmente aos poucos estão criando uma aura negativa em torno do verbo.

Quer abrir uma empresa, vai fundo, mas saiba aonde está entrando e nas consequências dos seus atos. Quer ver palestra de gente que diz te ensinar como agir? Vai lá e assista, mas pelo menos questione! Saiba assistir a uma apresentação.

Desculpem a franqueza, mas quem tem uma empresa real, como eu, ao assistir este conteúdo furado tem seu estômago revirado. Alguém tem de falar, tá chato ver a quantidade de pessoas afundando por que se iludem com estas lorotas.

4 thoughts on “Eu e o empreendedorismo do palco

  1. Nunca tinha pensado sobre esta perspectiva em relação a starups.

    Porém já fiquei pensando sobre como escolas de desenvolvimento de jogos ensinam as pessoas sobre o mercado, sendo que os professores não tem nada lançado no mercado, o que acaba ensinando um conteúdo velho e muitas vezes errado.

    Vendem a google play como uma mina de outro, sendo que na maioria das vezes é uma mina de desespero e desilusão.
    Você imagina que seu aplicativo vai ter 100 mil downloads e depois de 1 mês não chegou a 100.

    Por isso eu sempre recomendo amigos a assistirem palestras, entrevistas com pessoas que estão no mercado, que já tem produtos lançados, justamente para ter uma visão realista.

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    Diego Nascimento Reply:

    Frederico, o problema que muitos que até chegaram lá, acabam vendendo o empreendedorismo de palco como um produto para ganhar dinheiro, as vezes ganham até mais assim, e mais uma vez estamos envoltos de scripts prontos, persuasão e marketing batido… já vi dono de loja de doces fazer empreendedorismo de palco, ele tinha um negócio, tinha experiência, mas as palestras motivacionais e de empreendedorismo se tornaram sua grande fonte de renda, a lojinha de doce ficou lá esquecida, só para constar que ele era um empreendedor de verdade. Hoje os kras montam um negocinho meia boca na internet e no dia seguinte estão no palco pintando negócio como milionário e tal. É muito difícil achar algo honesto nesse meio, pois o empreendedorismo de palco é um negócio muito promissor e dá mais dinheiro da forma como predominantemente é apresentada hoje.

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