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Leitura: modo de usar

Se você acompanha este blog já deve ter notado que um dos meus assuntos favoritos é a leitura (basta ver os dois últimos posts aqui e aqui, além da minha lista anual de boas leituras do ano). Curioso que a leitura só se tornou algo realmente importante para mim bem tarde: eu tinha lá pelos meus 17, 18 anos.

Ainda mais interessante é saber que fui um analfabeto funcional até os 21 anos, quando ingressei no curso de Filosofia.

Até 2014 eu acreditava que a educação era um problema sério em nosso país, a partir de 2015 passei a ter a certeza de ser o que irá (e já está) destrui(r|ndo) esta nação. Então este post é sobre a única ferramenta que conheço e sei ser capaz de alavancar a vida de alguém: a leitura.

Como ela alavanca sua vida

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Eu tinha 18 anos, três bombas em meu currículo escolar e uma vida confortavelmente vadia. Escola pela manhã, tarde e noites livres para fazer o que quisesse: ao final do bimestre corria atrás para tirar média nas provas e ao final do ano me safava de outra bomba ao passar nas constantes recuperações. Engraçado pensar como a mediocridade parecia massa naqueles dias…

Alguns conhecidos já estavam na faculdade e uns raros fazendo intercâmbio, eu ainda no segundo grau. Como eram pessoas distantes, não passavam de mera curiosidade: pareciam seres super dotados, sortudos ou beneficiados (inveja detected). Depois de um tempo muitos amigos próximos começaram a ferrar suas vidas de maneiras assustadoras, e ainda não sei como não ocorreu comigo (mortes, acidentes, doenças facilmente evitáveis, sequelas de drogas, paternidade precoce…).

Veio o primeiro vestibular, quase todos os sobreviventes passaram e eu não. Foi quando percebi que aqueles que estudavam conseguiam se distanciar de um destino desagradável. Notei algo que diferenciava os sobreviventes dos demaiso estudo.

A mediocridade agora se apresentava a mim como uma doença: aqueles que chamei de sobreviventes na realidade estavam vivendo. Eu sobrevivia: a cada ano ficava mais velho e sem saber o que fazer. Temia me juntar aos que haviam falhado de maneira tão estúpida. Na realidade, quase todos me viam como sendo pertencente ao grupo dos que ficaram.

Entrei no pré-vestibular e fiquei por quatro meses, na sequência fui para o mercado de trabalho (em uma Livraria), estudei feito um louco e passei em sexto lugar no vestibular de Filosofia. Neste processo de um ano me afastei do cemitério e desde então as coisas só melhoraram.

A leitura me apresentava alternativas que até então sequer imaginava: coisas que não te contam na mesa do bar, experiências que não são facilmente acessíveis, possibilidades que não se espera. Resumindo: os textos me expunham a objetos que só teria acesso em uma conversa se tivesse muita sorte.

Mais do que isto, ao aprender algo novo surgiam conexões entre os assuntos. Eu via, por exemplo, a maçã da Apple, que estava ligada à de Newton, que também referenciava a tentação (por isto mordida). Os videogames se tornavam mais ricos também: o cogumelo do Mario não era apenas um cogumelo mágico, era uma referência à “Alice no País das Maravilhas”.

E do ponto de vista financeiro também era ótimo: na livraria o cliente mencionava um assunto, eu sabia que ele estava relacionado a outros e quais livros os continham e nisto vendia mais, o que me incentivava muito a ler mais livros, que conhecia em meu tempo ocioso na loja. Iniciou-se um ciclo: quanto mais lia mais vendia.

Ao vender mais livros, via que o processo de organização da loja era uma merda pois o software era um lixo. Nascia o primeiro produto da itexto, que foi a Plataforma Livreiro. E então eu tinha contato com mais livros de informática para aprender a programar melhor, e com isto fui me tornando o que realmente queria ser e serei sempre: um programador.

Neste momento começo a detectar as ideias e relaciona-las entre si.

Como aprendi a ler aos 21 anos

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Meus anos na escola foram descartáveis: era péssimo aluno. Creio que o ensino também não era tão bom assim pois nos quatro meses de vestibular “aprendi” tudo o que me fora ensinado nos 14 anos que passei na escola. Claro que agora eu pagaria um preço altíssimo por minha vadiagem.

De todos os cursos escolhi um dos quais a disciplina de estudo era das mais ferrenhas. Eu mal sabia português (até hoje não se sabe como aprendi inglês na infância), e de repente era necessário conhecer o mínimo do francês, grego, latim, alemão. Ainda pior: minha leitura era extremamente ineficiente. Era um procedimento estritamente linear, diversas palavras eu não conhecia e ao final dos textos creio que captava no máximo uns 20% do conteúdo.

Era claro que a coisa não estava funcionando e não iria funcionar: meu destino zumbi se aproximava novamente. O interessante é que os professores detectaram esta falha não apenas em mim, mas na maior parte da turma, razão pela qual tivemos uma matéria especial cujo objetivo era justamente aprender a estudar. Foi quando aprendi a ler de verdade.

Ok, em um primeiro momento eu conectava as ideias que conseguia captar. A partir de agora além de captar mais ideias, eu também as entendia a fundo e as questionava. Como?

Como ler um texto

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Ler não é um ato passivo. Seus olhos não devem simplesmente seguir as linhas repetindo em sua cabeça as palavras impressas. O leitor deve assumir uma postura ativa diante do texto. Pode soar curioso para alguns, mas o texto não é um monólogo e sim um diálogo com o leitor.

Terminou o parágrafo ou frase, se questione: aquilo faz sentido? Você realmente entende aquilo que foi dito? Consegue pensar em exemplos que ilustrem aquela situação? Visualizou a cena? O parágrafo não deve terminar com um ponto ou exclamação, mas sempre com uma interrogação na mente do leitor.

O texto é uma pergunta: o bom autor te incita a pensar (de preferência naquele momento). Ainda mais importante: nem sempre o autor está certo. Uma leitura rica envolve a discordância do leitor em relação ao autor. Discordou? Então tenha certeza de que teve uma experiência foda.  A leitura deve ser uma discussão. E não, um livro do qual se discorda não é necessariamente um livro ruim.

(quer um bom exemplo disto? Leia Platão: em diversos pontos de seus diálogos ideias erradas são inseridas propositalmente para incitar o leitor a discordar. E o mais importante: raríssimas vezes chega-se a uma conclusão – é a aporia)

A leitura proveitosa é um processo lento. Muito lento (demorei 10 anos para terminar as 80 e poucas páginas do Tractactus do Wittgenstein, que talvez tenha sido a melhor leitura da minha vida). Requer que tenhamos o que Hegel chamava de paciência do conceito.

O leitor não pode sucumbir à ansiedade. O autor ao expor a informação o faz de uma forma construtiva, uma ideia por vez, e estas ideias são trançadas como um bordado. Aliás, sabe qual é uma das origens etimológicas da palavra texto? Tecido.

Quando todas as ideias se conectam (você chegou ao final do texto), a tapeçaria final lhe é exposta. Você questionou cada uma de suas linhas e agora tem uma visão global da intenção do autor ou, melhor ainda, da sua interpretação sobre o que foi escrito.

O vídeo ou o áudio não lhe proporcionam de maneira tão fácil este diálogo que descrevi acima. Aliás, temo que o excesso audiovisual dos dias atuais ao nos isolar desta conversa terminará por nos emburrecer. Você pode até mesmo pensar que está aprendendo com um audiobook ou vídeo, mas nossa postura é mais passiva que ativa nesses meios.

A leitura é um jogo não linear. Ler linearmente é desperdício do seu tempo. Pense naquele texto difícil, você passa pelos parágrafos em sequência? Eu não: na realidade luto com eles. Volto ao início, releio diversas vezes, pego um marcador, o risco em n partes, às vezes até mesmo xingo o autor verbalmente. Há termos desconhecidos? Busco no dicionário/internet, penso no significado e se foi bem aplicado. É o diálogo novamente.

Você também pode voltar não apenas ao início do parágrafo, mas páginas atrás. Nestes casos marco meus livros com o que tiver em mãos. No caso de PDF, melhor ainda, pois as possibilidades são ainda mais interessantes e não preciso comprar mais de uma cópia física do livro (sim, em alguns casos tenho mais de uma cópia do livro, justamente devido às anotações e marcações que faço nestes).

Um texto denso quando lido linearmente normalmente é um texto denso mal lido e portanto pouco compreendido. Pior: é seu tempo jogado fora e talvez uma baixa em sua auto estima.

Sabe aquelas notas de rodapé? Valem ouro, leia todas também. Aliás, uma dica: há livros nos quais as notas são mais interessantes que o conteúdo principal. Não foram inseridas por acaso, estão ali por que abrem trilhas de pesquisa para o leitor: estão ali por que se fossem inseridas no texto principal afastariam demais o leitor do objetivo original da obra.

Vejo as notas de rodapé como “conexões gratuitas entre ideias”. O autor está ali te mostrando que há conexão entre o texto principal e outros assuntos que se encontram fora do escopo original do trabalho.

Ainda mais interessante é quando o leitor se torna autor. Não basta apenas dialogar, você também tem de fazer suas notas a respeito do que está lendo. Por que isto é importante? Por que você só conhece algo quando de fato consegue descrevê-lo em palavras, principalmente quando forem compreensíveis por outras pessoas que não sejam você.

Quando digo notas não quero dizer resumos, digo novos textos mesmo. Nos ensinam errado a estudar: não é repetir o que o autor disse. É externalizar as suas próprias ideias, surgidas a partir da leitura como conteúdo novo. Quando chegamos a este ponto o ciclo da leitura se fechou: leitor se tornou autor, que agora irá interagir com outros leitores e por aí vai.

Este blog, por exemplo,  é a materialização deste ciclo. Basta ver os posts mais antigos, como este.

Dicas de leitura

Eu não podia terminar um post sobre a leitura sem dar dicas de leitura sobre a… leitura, certo? Então seguem dois livros que adoro sobre o assunto.

Uma História da Leitura – Alberto Manguel

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O título já diz tudo: é a história do ato de ler. Este livro tem a introdução mais bonita que já li. Uma leitura maravilhosa. Além de tudo é ilustrado, e com excelentes imagens que realmente enriquecem muito o conteúdo.

Uma história inusitada para a nossa ferramenta mais poderosa. De novo: leitura maravilhosa!

Como se faz uma tese – Umberto Eco

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Ainda vou escrever um post sobre como estudar. Enquanto isto, alguém que fez um trabalho muito melhor foi o Umberto Eco neste livro. Nele você aprenderá como é o ofício do pesquisador/autor. Sabe aquele negócio que mencionei de ter mais de uma cópia física do livro como objeto de trabalho? Aprendi aí.

Como se faz um fichamento, como se marca um livro, como se escreve resumos, enfim, como escrever um livro técnico de uma forma minimamente decente.

Interessante que é o ofício do pesquisador antes da Internet.

Conclusão?

Este post não tem conclusões. Quis apenas expor aqui como trato o ato da leitura por saber que é uma forma eficiente de se aprender e também devido ao meu medo de que estejamos iniciando um processo de emburrecimento coletivo com o excesso audiovisual.

Se a leitura for vista como um ato interativo e não como algo passivo tenho certeza de que terei dado minha contribuição.

PS: livros interativos não funcionaram. Prova disto foi a morte da indústria do CD-ROM, que não foi substituída pela Internet.

6 thoughts on “Leitura: modo de usar

  1. Ótimo post! Lembrei de outro dia que vi uma pessoa se gabando no Twitter de ter feito dezenas de cursos online em 1 mês. Me veio logo na cabeça a “síndrome do pato”.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Obrigado Bruno!

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  2. Adorei o teu relato e principalmente a iniciativa de falar sobre algo que ocorre, poucos percebem e não conseguimos mensurar: qual a nossa capacidade de aprender?

    Faltou uma informação que modifica todo o entendimento: se você estudou em redes particulares ou pública. Até porque, uma coisa é não aprender nada no público, outra é não aprender nada no privado… mesmo que seja contraditório, o menos do privado ainda é mais do público rsrs

    Parabéns novamente pelo artigo e admiro o teu trabalho!!

    Att,
    Cláudio.

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    Kico (Henrique Lobo Weissmann) Reply:

    Oi Cláudio, obrigado.

    Minha formação essencial foi em escolas particulares.

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